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Daniel Faria – Ítaca

O que dói É não poder apagar a tua ausência e repetir dia após dia os mesmos gestos O que dói é o teu nome que ficou como mendigo Descoberto em cada esquina dos meus versos O que dói é tudo e mais aquilo que desteço Ao tecer para ti novos regressos
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será…
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Luis Alberto de Cuenca – O desjejum

Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo,…
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Nuno Júdice – Fábula industrial

As chaminés das fábricas tinham pescoços de cegonha, e quando deitavam fumo era como se as cegonhas abrissem as asas. Quando o fumo era preto, porém, as cegonhas transformavam-se em corvos de grandes pescoços feitos de tijolo; e ao contrário das cegonhas não voavam, mas faziam soar as sirenes com os bicos metálicos, para que…
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Adelaide Ivánova – os anos noventa

você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino…
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Ian Hamilton – Fantasmas

O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTer visto vocêAspirando…
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Eugénio de Andrade – Com o tempo aproximar-se-ão os rios…

Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.
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Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…
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Manuel António Pina – Todas as palavras

As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito…
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Heinrich Heine – Chegou a morte

Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o…