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Wislawa Szymborska – Terroristas

Dias inteiros eles ficam pensando como matar, para matar, e quantos matar para matar muitos. Fora isso comem com apetite, rezam, lavam os pés, alimentam os pássaros, dão telefonemas coçando o sovaco, estancam o sangue quando machucam o dedo, se são mulheres, compram absorventes, sombra para as pálpebras, flores para os vasos, todos gracejam um…
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Ivan Junqueira – Vésperas

A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o…
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Rui Caeiro – Espero um dia

Espero um dia ter de esperar-te, com a ansiedade dos que perderam tudo ou quase, menos talvez a memória E espero humildemente vir a merece-te, cometer um ato heroico e merecer-te, ser outra e a mesma pessoa – e merecer-te Espero estar bem triste para quando enfim chegares poder dar-te o mais autêntico: a memória,…
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Geruza Zelnys – descomedimentos

que venha abaixo tudo que venha abaixo o que é tempestade e destruição que não sobre embarcação e vela que os raios queimem plantações e trovões arrebentem toda a terra e teu corpo se deite sobre o meu e tua boca mate toda fome minha e que versos & palavras do amor sejam ditos bem…
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Luis Alberto de Cuenca – Só o silêncio salva

Só o silêncio salva, companheiro. Só o silêncio salva. Se tiveste uma noite gloriosa em que Afrodite sorriu para ti e Baco encheu-te a taça sem cessar, pensa que em breve, quando e noite se for, teus amigos voltarem para casa e começar a amanhecer, só o silêncio te salvará, rapaz. Tem isso em conta.…
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Antonia Pozzi – Morte de uma estação

Choveu toda a noite sobre as memórias do verão. Ao anoitecer saímos no meio de um ribombar lúgubre de pedras e, parados na margem, levantamos as lanternas para explorar o perigo das pontes. Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas ensopadas e pousadas sobre os fios à espreita de indícios secretos de partida – e refletiam-nas…
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Dan Fante – [Eu conheci o mais faminto]
![Dan Fante – [Eu conheci o mais faminto]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/01/maxresdefault.jpg)
Eu conheci o mais faminto e desprezível dos gatos enquanto sentava com um livro e meio maço de cigarros num banco em Venice Beach Ele me viu e apareceu branco sujo com um olho verde e outro amarelo e um corte recente em sua orelha desfigurada Furioso como um lobo ferido ele estabeleceu uma distância…
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Dylan Thomas – Colina de samambaias

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o…
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Wislawa Szymborska – Vida difícil com a memória

Sou um péssimo público para a minha memória.Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,mas eu me agito, tusso,ouço e não ouço,saio, volto e saio de novo. Ela requer todo o meu tempo e atenção.Quando durmo, é fácil para ela.De dia já nem tanto, o que a magoa. Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,revolve fatos…