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Rainer Maria Rilke – Dia de Outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.Estende as tuas sombras nos relógiosde sol e solta os ventos prado afora. Instiga a sazonarem, com dois diasa mais de sul, as frutas que, tardias,conduzes rumo à plenitude, e apura,no vinho denso, a última doçura. Quem não tem lar já não terá; quem morasozinho há de velar e…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Homenagem a Ricardo Reis

Não creias, Lídia , que nenhum estioPor nós perdido possa regressarOferecemos a florQue adiámos colher. Cada dia te é dado uma só vezE no redondo círculo da noiteNão existe piedadePara aquele que hesita Mais tarde será tarde e já é tardeO tempo apaga tudo menos esseLongo indelével rastoQue o não – vivido deixa. Não creias…
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Ricardo Reis – Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,…
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John Donne – Elegia: indo para o leito

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor…
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Bruno Tolentino – Via Crucis

A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma…
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Catulo – Vivamus, mea Lésbia, ataque amemus

Vivamos minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos…
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Percy Bysshe Shelley – Ozymandias

Disse o viajante de uma antiga terra: “Duas pernas de pedra, no deserto, Despontam gigantescas, e bem perto Há um rosto destroçado que descerra Os lábios num sorriso de comando Que atesta: o escultor leu com mestria Paixões que na matéria inerte e fria A mão que as entalhou vão perdurando. ‘Meu nome é Ozymândias,…
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Giuseppe Ungaretti – Natal

Não me apetece mergulhar em um novelo de estradas Carrego tanto cansaço sobre os ombros Deixe-me assim como uma coisa pousada em um canto e abandonada Aqui não se sente senão o bom calor Estou com as quatro cabriolas de fumo da lareira

