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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a…
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Paulo Henriques Britto – Biodiversidade

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, como há quem não se vexe de ler e decifrar essas palavras bestas estrebuchando…
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

III Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio, sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido — que se dá a posteriori, antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único…
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido, algo que se assemelhasse a uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo, claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo, espécie de marchetaria, com padrão indecifrável (por não seguir um projeto), mas assim mesmo um resguardo, um remédio…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou…
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Paulo Henriques Britto – De “Seis Sonetos Soturnos”

I A qualquer hora, o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. Ou vice- -versa. Cada palavra proferida — uma sentença grave, uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor…
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Affonso Romano de Sant’Anna – Vai, Ano Velho

Vai, ano velho, vai de vez, vai com tuas dívidas e dúvidas, vai, dobra a ex- quina da sorte, e no trinta e um, à meia-noite, esgota o copo e a culpa do que nem me lembro e me cravou entre janeiro e dezembro. Vai, leva tudo: destroços, ossos, fotos de presidentes, beijos de atrizes,…
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista,…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os…