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T. S. Eliot – Os Homens Ocos

“A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada,…
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Álvaro de Campos – Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado…
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José Saramago – Não me Peçam Razões

Não me peçam razões… Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não…
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Fernando Pessoa – Autopsicografia

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a…
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Hans Magnus Enzensberger – Hábitos

Quantas vezes Platão assoou o nariz, e São Tomás de Aquino tirou os sapatos, quantas vezes Einstein escovou os dentes, e Kafka ligou e desligou a luz, antes de enfim chegarem ao que lhes cabia fazer? Semanas sem fim, feitas as contas, levamos abotoar e desabotoar camisas, procurar os óculos ou, tomada a decisão, novamente…
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Jorge Luis Borges – O Mar

Antes que o sonho (ou o terror) tecesse Mitologias e cosmogonias, Antes que o tempo se cunhasse em dias, O mar, sempre mar, já estava e era. Quem é o mar? Quem é aquele violento E antigo ser que rói os pilares Da terra e é um e muitos mares E abismo e resplendor e…
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Joaquim Cardozo – Canção Elegíaca

Quando os teus olhos fecharem Para o esplendor deste mundo, Num chão de cinza e fadigas Hei de ficar de joelhos; Quando os teus olhos fecharem Hão de murchar as espigas, Hão de cegar os espelhos. Quando os teus olhos fecharem E as tuas mãos repousarem No peito frio e deserto, Hão de morrer as…
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Carlos Drummond de Andrade – A Luis Mauricio, Infante

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se…
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Neil Gaiman – A Escuridão Está à Espera

a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna pintada de ocre, corante, carvão vegetal fazendo o alce se mover, fazendo o mastodonte respirar fazendo o caçador correr e matar. veja como procuram apaziguar e entender o mundo acima isso eles sabem isso eles entendem há escuridão por toda a parte lá fora o escuro está…
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Angela Melim – Meu pai nos abandonou

Meu pai nos abandonou. Minha mãe casou e mudou. Vovó morreu. Os irmãos sumiram no mundo ou submundo. Sem explicação Yvonne nunca mais falou comigo e, para Ronaldo, sou fantasma do passado. Vejo meus filhos já voando. Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html