Wislawa Szymborska – As Cartas dos Mortos

Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,
mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.
Sabemos quais dívidas não foram pagas.
Com quem as viúvas rapidamente se casaram.
Pobres mortos, mortos cegos,
enganados, falíveis, canhestramente previdentes.
Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.
Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.
Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,
ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça.
Seu mau gosto, Napoleão, vapor e eletricidade,
seus remédios mortíferos para doenças curáveis,
seu tolo apocalipse segundo são João,
o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…
Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,
só que movidos três casas à frente.
Tudo que previam aconteceu totalmente de modo diverso,
ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso.
Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança
porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição.

Trad.: Regina Przybycien

Wislawa Szymborska – Bodas de Ouro

Devem ter sido diferentes um dia,
fogo e água, diferindo com veemência,
sequestrando e se doando
no desejo, no assalto à dessemelhança.
Abraçados, apropriaram-se e expropriaram
por tanto tempo,
que nos braços restou o ar
translúcido depois do relâmpago.

Um dia a resposta antecipou a pergunta.
Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro
pelo tipo de silêncio, no escuro.

O sexo fenece, os segredos se consomem,
na semelhança as diferenças se encontram
como todas as cores no branco.

Qual deles está duplicado e qual aqui está faltando?
Qual sorri com um duplo sorriso?
A voz de quem ressoa nas duas vozes?
Quem assente quando acenam com a cabeça?
Com o gesto de quem levam a colher à boca?

Quem arrancou a pele de quem?
Quem vive e quem morreu
enredado na linha – de qual mão?

Devagarinho, de tanto olhar, nascem gêmeos.
A familiaridade é a mais perfeita das mães –
não faz distinção entre os seus dois filhos,
mal recorda qual é qual.

No dia das bodas de ouro, dia festivo,
uma pomba vista de forma idêntica pousou na janela.

Trad.: Regina Przybycien

Wislawa Szymborska – Natureza-morta com um Balãozinho

Em vez da volta das lembranças
na hora de morrer
quero ter de volta
as coisas perdidas.

Pela porta, janela, malas,
sombrinhas, luvas, casaco,
para que eu possa dizer:
Para que tudo isso.

Alfinetes, este e aquele pente,
rosa de papel, barbante, faca,
para que eu possa dizer:
Nada disto me faz falta.

Esteja onde estiver, chave,
tente chegar a tempo,
para que eu possa dizer:
Ferrugem, minha cara, ferrugem.

Caia uma nuvem de atestados,
licenças, enquetes,
para que eu possa dizer:
Que lindo o sol se pondo.

Relógio, aflore do rio
e permita que te segure na mão,
para que eu possa dizer:
Você finge ser a hora.

Vai aparecer também um balãozinho
levado pelo vento,
para que eu possa dizer:
Aqui não há crianças.

Voe pela janela aberta,
voe para o vasto mundo,
que alguém grite: Ó!
para que eu possa chorar.

Trad.: Regina Przybycien

Wislawa Szymborska – Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem – mas vai passar.
Você passa – eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d’água.

Trad.: Regina Przybycien

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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas:

sabem de tudo e muito melhor do que os outros:
– cinquenta e duas.

ficam inseguras a cada passo:
– quase todas as outras.

estão prontas a ajudar
desde é claro que isso não lhes tome muito tempo:
– quarenta e nove, o que já não é mau.

são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
– quatro… vá lá, talvez cinco.

estão prontas a admirar sem inveja:
– dezoito.

são induzidas ao erro
por uma juventude que passa tão depressa:
– umas sessenta.

com quem não se pode brincar:
– quarenta e quatro.

vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
– setenta e sete.

são dotadíssimas para a felicidade:
– no máximo vinte e tal.

inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
– isso, o melhor é não tentar saber nem aproximadamente.

não pedem nada da vida exceto coisas:
– trinta, mas preferia estar enganada.

encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas:
– cedo ou tarde, oitenta e três.

justas:
– pelo menos trinta e cinco, e lamba os beiços.

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
– três.

dignas de compaixão:
– noventa e nove.

mortais:
– cem entre cem,
número que, até momento, não é possível alterar.

Denise Levertov – O Segredo

Duas meninas descobrem
o segredo da vida
no inesperado verso
de um poema.

Eu, que não conheço o
segredo, escrevi
esse verso. Elas me
disseram

(por um terceiro)
que o tinham achado
mas não qual era ele
nem sequer

qual o verso. É claro que
agora, uma semana
depois, já esqueceram
o segredo,

o verso e o nome do
poema. Eu as amo
por terem encontrado
o que nunca encontrei,

e por me amarem, a mim
que escrevi o verso,
e por já o terem esquecido,
de modo que,

mil vezes, até que a morte
as alcance, elas podem
tornar a descobri-lo, em outros
versos,

em outros
fatos. E as amo por
desejarem conhecê-lo,
por

presumirem que existe
tal segredo, sim,
por isso
sobretudo.

Trad.: Carlito Azevedo (?)

Jaroslav Seifert – Vi Apenas uma Vez

Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
            E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.

O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
            E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
           por muito tempo esperado
e lábios
           que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.

Trad.: Aleksandar Jovanovic

Adília Lopes – A Propósito das Estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas 

Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro
em que escolheu ser livre
na grama alta e seca junto ao pomar
você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”.

Terminada a universidade te vi
só mais uma vez. Você estava estranha.
E eu obcecado com um projeto.

Agora se passaram os tais dez anos
e até mais um pouco: eu sempre soube
onde você estava –

Devia ter ido te ver
movido pela esperança de recuperar seu amor.
Você continua solteira.
Mas não fiz nada disso.

Só em sonhos, como esta madrugada,
a intensidade terrível
de nosso amor de garotos
me ocupa de novo a mente, a carne.

Tivemos aquilo que todos
se esforçam tanto para ter;
e abandonamos tudo para trás aos dezenove anos.

Me sinto com mil anos, como se tivesse
vivido muitas vidas.

E talvez nunca descubra
se sou um idiota
ou fiz o que exigia
o meu karma.

Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amor
depois a fortaleza que o protege
por fim seu cárcere.
E quando o corpo morre, o amor jorra
caudalosamente
como de um caça-níqueis clandestino quebrado
jorram de súbito
com estrondo
todas as moedas de gerações
e gerações entregues à própria sorte.