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Abel Silva – Navegações

Minha casa está calma, eu é que sou turbulento, o país navega, dizem, eu é que me arrebento eu é que sempre invento toda esta ventania eu é que não me contento com o rumo da romaria não sei se a sorte é cega ou eu que vivo a teimar: sei que eu sou o…
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Hilda Hilst – Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
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Nelson Santander – Que a Terra lhe seja Leve

“Que a terra lhe seja leve”, uma crônica de Nelson Santander
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Eugénio de Andrade – O Sorriso

Creio que foi o sorriso, o sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
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Carlos Drummond de Andrade – Os Gregorianos

Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que…
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Philip Larkin – Conversar na Cama

Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa…
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Philip Larkin – A Primeira Coisa

A primeira coisa Que entendi foi esta: Tempo é o eco de um machado Dentro da floresta. Trad.: Luiz Roberto Guedes
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Philip Larkin – Os Velhos Tolos

Que pensam eles que aconteceu, os velhos tolos, Para os pôr assim? Porventura supõem Que é mais crescido terem a boca aberta e a babar-se E mijarem-se a toda a hora e não se recordarem De quem os visitou hoje de manhã? Ou que é só quererem E volta tudo a ser como quando dançaram…
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Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que…
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Jorge Luis Borges – Bloomsday

Num só dia do homem estão os dias do tempo, desde aquele inconcebível dia inicial do tempo, em que um terrível Deus prefixou os dias e agonias até o outro em que o rio ubíquo do tempo secular torne à nascente, que é o Eterno, e se apague no presente, no futuro, no ontem, no…