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Rainer Maria Rilke – O Mundo Estava no Rosto da Amada

O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava…
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Wislawa Szymborska – Engano

Soou o telefone na galeria de arte, soou à meia-noite na sala quieta; se houvesse gente dormindo, acordaria na certa, mas aqui há somente insones profetas, somente reis empalidecem de luar e olham indiferentes o que há para olhar, e a mulher do usurário, agitada na aparência, fita justo essa coisa sonante na lareira, mas…
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Paulo Henriques Britto – Envoi

O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na…
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Wislawa Szymborska – As três Palavras mais Estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien
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Paulo Henriques Britto – Três Peças Dispépticas

I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali…
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Wislawa Szymborska – Entre Muitos

Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e…
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Paulo Henriques Britto – de “Biographia Literária”

IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o…
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Wislawa Szymborska – Fim e Começo

Depois de cada guerraalguém tem que fazer a faxina.Colocar uma certa ordemque afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulhopara o lado da estradapara que possam passaros carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolarno lodo e nas cinzasem molas de sofásem cacos de vidroe em trapos ensanguentados. Alguém tem que…
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Paulo Henriques Britto – de “Cinco Sonetos Frívolos”

V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se…
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Wislawa Szymborska – A Vida na Hora

A vida na hora. Cena sem ensaio. Corpo sem medida. Cabeça sem reflexão. Não sei o papel que desempenho. Só sei que é meu, impermutável. De que se trata a peça devo adivinhar já em cena. Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne…