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Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer

Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando…
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Rainer Maria Rilke – Fonte Romana

Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em…
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Adélia Prado – A Treva

Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir,…
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Anne Sexton – Frágil Fio

Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia…
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Laura Riding – Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso,…
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Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
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Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais

Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.: Aurora Bernardini
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Giuseppe Ungaretti – Peso

Mariano, 29 de junho de 1916 Aquele camponês se fia na medalha de Santo Antonio e segue tranquilo Mas bem só e bem nua sem qualquer miragem carrego minha alma Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti
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Georg Trakl – Ocaso

A Karl Borromäus Heinrich Por sobre o lago branco Partiram os pássaros selvagens. No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado. Por sobre os nossos túmulos Inclina-se a fronte despedaçada das trevas. Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada. Sempre ressoam os muros brancos da cidade. Sob arcos de espinhos Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos…
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Georg Trakl – Olhando um velho álbum

Sempre voltas, melancolia, Mansidão da alma solitária. Por fim arde um dia dourado. Com humildade curva-se à dor o paciente Ressoando harmonia e suave loucura. Olha! Já escurece. Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se E com ele sofre um outro. Arrepiada sob estrelas de outono, A cabeça mais baixa a cada ano.