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Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o…
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Diego Moraes – Já se passaram dez anos

Já se passaram dez anos Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres Já se passaram dez anos Os poemas que escrevi quando…
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Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas

Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às…
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Jorge de Sena – Suma Teológica

Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram navios no alto mar, quando nasci. Nada mudou. Continuaram as guerras; continuou a subir o preço do pão; continuaram os poetas, uma vez por outra, a perguntar por ti. É certo que, então, imensa gente envelheceu instantânea e misteriosamente. Mas até isso, meu amor, se não sabe…
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Ángel González – Todos vocês parecem felizes…

… e sorriem, às vezes, quando falam. E até dizem uns aos outros palavras de amor. Mas amam-se de dois em dois para odiar de mil em mil. E guardam toneladas de asco por cada milímetro de felicidade. E parecem – nada mais que parecem – felizes, e falam com o fim de ocultar essa…
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Maria Teresa Horta – Poema sobre a Recusa

Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te…
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César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é…
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Mário Cesariny – Lembra-te

Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
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Gonçalo M. Tavares – Os Mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais…
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Charles Bukowski – Foda

foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas…