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Charles Bukowski – Agarre o Escuro

estou sentado aqui agora bêbado escutando as mesmas sinfonias que me deram a vontade de seguir em frente quando eu tinha 22 anos. 40 anos depois elas e eu já não somos mais tão mágicos. você deveria ter-me visto tão esbelto sem barriga eu era um pedaço de homem: flamejante, forte, insano. dissesse uma palavra…
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Antonia Pozzi – Pausa

Parecia-me que este dia sem ti devia ser inquieto, escuro. Em vez disso está repleto de uma estranha doçura, que aumenta com o passar das horas – quase como a terra após um aguaceiro, que fica sozinha no silêncio a beber a água caída e pouco a pouco nas veias mais profundas se sente penetrada.…
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Marcelo Montenegro – Três Pensatos

1. penso naquela única gota gelada do chuveiro quente. Nas ilíadas clandestinas que a febre percorre até virar suor. Penso nas caretas que os músicos fazem quando estão solando. No meu pai me dizendo que tudo isso aqui era mato. Penso na imagem exata de uma aurora indecisa. Penso em calços de papelão para pianos…
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Ana Martins Marques – História

Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem um história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma…
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Charles Bukowski – Um poema de amor

todas as mulheres todos os beijos delas as formas variadas como amam e falam e carecem. suas orelhas elas todas têm orelhas e gargantas e vestidos e sapatos e automóveis e ex- maridos. principalmente as mulheres são muito quentes elas me lembram a torrada amanteigada com a manteiga derretida nela. há uma aparência no olho:…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos A transparência perdida — o grito Que não conseguiu atravessar o opaco O limiar e o linear perdidos Deverá tudo passar a ser passado Como projecto falhado e abandonado Como papel que se atira ao cesto Como abismo fracasso não esperança Ou poderemos enfrentar e superar Recomeçar a…
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Ricardo Domeneck – Doentes

Doentes. Nós, todos doentes. Há tanto doentes todos. Nós. Pungidos, conquanto impunes. Não, não impunes. Não se constrói impune a casa sobre covas. Não se ergue o prédio em grão-cemitério. Não sem velar e lavar carinhosos e doridos os ossos e os dentes. Não impunes. Doentes de cada gota derramada. Por nós ou avós. Os…
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Ana Martins Marques – a parte que me cabe

a parte do teu corpo que procura pelo sol como os gatos pela casa a parte que permanece imóvel quando cantas, aquela que se move quando estás parado a parte que apenas a mim e de relance, por descuido revelaste a parte onde guardas as memórias de infância, a parte que ainda anseia pelo futuro…
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Charles Bukowski – Os Gênios da Raça

não há nada a discutir não há nada a lembrar não há nada a esquecer é triste e não é triste parece que a coisa mais sensata que uma pessoa pode fazer é se sentar com uma bebida na mão enquanto as paredes acenam seus sorrisos de adeus alguns passam por tudo isso com uma…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto

Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho…