Lang Leav – Uma pequena consolação

Tudo o que um dia fomos,
é agora um verso triste e solitário.

Se antes eu tinha tanto a dizer,
agora estou desprovida de palavras.

Às vezes, é a ordem das coisas
que as faz parecer ainda piores.

Não é como se você tivesse ficado
se eu não tivesse partido primeiro.

Trad.: Nelson Santander

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A small consolation

Everything that we once were,
is now a sad and lonely verse.

When once I had so much to say,
I am now bereft of words.

Sometimes it’s the order of things,
that make them seem much worse.

Its not as if you would have stayed
if I hadn’t left you first.

Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.
Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outros
que levam a luz dentro de si e a revelam,
que vem até mim do ar, e não de mim.

Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.
Passos que pararam diante da minha porta.
Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.
Os demais ficaram em silêncio.
Uma voz me chamou: Lázaro, disse,
levanta-te e anda.
Eu a reconheci, mas fingi não ouvi-la.
Lembrei-me de Jonas. Fiquei em silêncio.
Pensei: Preferiria
não fazê-lo
, nunca sair daqui.

Conheço bem demais o mundo.
Lá fora, eu sei, espreita o mau amor,
seu mel amargo, seu engano, sua ameaça.

Levanta-te de ti. Sai de tua tumba.
Mas eu detestava os milagres.
E, além disso, tinha
demasiado apreço pela minha vida de morto.

Deixei passarem os anos. Agora espero
uma voz que me chame, que me diga
o que devo fazer, o que desejo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 14/07/2020

Lázaro se niega a resucitar

Un día oí unas voces que venían de afuera.
Por fin voces de afuera, pensé, voces de otros
que llevan la luz dentro y que la dicen,
que me llegan del aire y no de mí.

Voces que al acercarse eran susurros.
Pasos que se pararon delante de mi puerta.
Alguien dijo: Aquí yace, como si lo leyese.
Callaron los demás.
Una voz me llamó: Lázaro, dijo,
levántate y anda.
Yo la reconocí pero fingí no oírla.
Me acordé de Jonás. Me quedé quieto.
Pensé: preferiría
no hacerlo
, no salir nunca de aquí.

Conozco demasiado bien el mundo.
Allá afuera, lo sé, acecha el mal amor,
su amarga miel, su engaño, su amenaza.

Levántate de ti. Sal de tu tumba.
Pero yo detestaba los milagros.
Y además le tenía
demasiado cariño a mi vida de muerto.

Dejé pasar los años. Ahora espero
una voz que me llame, que me diga
lo que tengo que hacer, lo que deseo.

Rosario Castellanos – Desamor

Desamor

Viu-me como se olhasse através de um cristal
ou do ar
ou de nada.

E então entendi: eu não estava ali
nem em lugar nenhum
nunca estive nem jamais estaria.

E fui como alguém que morre na epidemia,
não identificado, e é jogado
na vala comum.

Trad.: Nelson Santander

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Desamor

Me vio como se mira al través de un cristal
o del aire
o de nada.

Y entonces supe: yo no estaba allí
ni en ninguna otra parte
ni había estado nunca ni estaría.

Y fui como el que muere en la epidemia,
sin identificar, y es arrojado
a la fosa común.

Joan Margarit – Último trem

Último trem
Crematório de Collserola

Se visses a chuva que enverniza
o verde escuro e espesso do jardim.
Teu vagão solitário está chegando
à sala espaçosa, sem adornos,
mobiliário, ou luminárias,
da Estación de Francia da morte.
Só se escuta o murmúrio do motor
que arrasta o peso
da infância e da juventude
– de teu anônimo tempo, já perdido,
que nunca mais será reclamado –,
rumo à fornalha e sua boca incandescente
refletida na vidraça molhada de chuva.
As lágrimas adornam esse lugar,
feio como um subúrbio, e, ainda assim,
recupero-te em um inverno longínquo,
numa manhã azul sob os plátanos:
imóvel, com as mãos atrás das costas,
observas a multidão entre os quiosques
como um sobrevivente que se esforça
para reconhecer, em seu redor,
os destroços do naufrágio.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 12/07/2020

Último tren
Crematorio de Collserola

Si tú vieras la lluvia que barniza
el verde oscuro y denso del jardín.
Tu vagón solitario está llegando
a la sala espaciosa, sin adornos,
ni mobiliario, ni ninguna lámpara
de la Estación de Francia de la muerte.
Sólo se oye el murmullo del motor
que va arrastrando el peso
de infancia y juventud
—de tu anónimo tiempo ya perdido
que no reclamará nunca más nadie—,
hacia el horno y su boca incandescente
que se refleja en el cristal de lluvia.
Las lágrimas adornan el lugar,
feo como un suburbio, y aún así,
te recupero en un lejano invierno,
una mañana azul bajo los plátanos:
inmóvil, con las manos a la espalda,
miras la multitud entre los quioscos
como un superviviente que se esfuerza
por identificar en torno suyo
los restos del naufragio.

Stephen Dunn – Sob a calçada

Sussurros ali se acumulam, más notícias
do nosso subconsciente,
lágrimas que escorreram
pelo interior das faces,
desculpas que ficaram presas
em nossas gargantas.

Tanto foi reprimido,
tanto se infiltrou pelas
solas dos nossos sapatos,
que metade de nossas vidas está sob a calçada.
Sente-se o profundo tumulto
que está sempre em curso.

Na primavera, pequenas explosões.
Sinais. É por isso que
a calçada precisa ser repavimentada.
Contratamos alguém para fazê-lo por nós,
nossos corpos tensos observando das janelas.

Trad.: Nelson Santander

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Beneath the Sidewalk

Whispers collect there, the bad news
from our subconscious,
tears that have dripped down
the inside of faces,
apologies that have gotten lost
in all of our throats.

So much has been held in,
so much has seeped through
the soles of our shoes,
that half our lives are beneath the sidewalk.
We sense the deep riot
that is always going on.

In spring there are small explosions.
Signs. This is why
the sidewalk must be repaved.
We hire someone to do it for us,
our tight bodies watching from windows.

Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho

A estupidez é sua própria recompensa.
Graças a ela, o mundo faz sentido,
um só, que é fácil de identificar.
E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância
é o sumo bem dos cidadãos de bem,
é a verdadeira marca dos eleitos.
Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência
só pode ser não se cansar. Olhai
as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

pastam em plena bem-aventurança,
sem que nenhuma antevisão do matadouro
perturbe a santa paz da ruminança.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 10/07/2020

Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]

                                                          para José Luís Peixoto

Quem se afasta do mundo deixa a quem fica
um rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançar
tantas vezes no lago dos teus olhos que não pergunto
pelos teus passos à lama dos caminhos nem
pelos teus sonhos ao côncavo da cama. Quando

partiste, a solidão ficou nas coisas todas – no prato
que ia por vício para a mesa mas voltava vazio;
nas roupas escuras; nas sardinheiras secas; na dor
embrutecida do cão cego a ganir toda a noite à porta
do teu quarto; na casa fria; no livro aberto

ao meio no tapete (e que ninguém lerá, porque divide
a tua vida entre o que foi e o que podia ter sido se deus
fosse mais deus do que diziam); e ainda neste rosto
que me deste – e que é o teu no meu envelhecido.

A tua morte foi como um espelho partido contra o verão;
e nenhum vento que atravessasse o mundo varreria
de mim os seus estilhaços. Por isso, perguntar não mais
seria do que tecer uma armadilha para as memórias

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Wendell Berry – De “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Peça ao mundo que revele sua quietude —
não o silêncio das máquinas quando cessam,
mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,
as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestades
se tornam o que são – e nada além disso.

[…]

V

O vento do outono chegou.
Está por toda parte. Move
cada folha de cada
árvore. É o único movimento
do rio. As folhas verdes
se cansam de sua cor.
Agora também o entardecer paira no ar.
Os falcões vívidos do dia
se recolhem. As corujas despertam.
Pequenas criaturas morrem porque
criaturas maiores têm fome.
Quão superior a esta
humana confusão de ganância
e fé cega, sangue e fogo.

VI

A pergunta diante de mim, agora que
estou velho, não é como estar morto,
– disso já sei o suficiente, por prática –
mas como estar vivo, como estas gastas
colinas ainda contam, e certas telas
de Cézanne, e esta humilde
curruíra cantante, que crê estar viva
para sempre, neste instante – e talvez esteja.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 08/07/2020

From “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Ask the world to reveal its quietude —
not the silence of machines when they are still,
but the true quiet by which birdsongs,
trees, bellworts, snails, clouds, storms
become what they are, and are nothing else.

[…]

V

The wind of the fall is here.
It is everywhere. It moves
every leaf of every
tree. It is the only motion
of the river. Green leaves
grow weary of their color.
Now evening too is in the air.
The bright hawks of the day
subside. The owls waken.
Small creatures die because
larger creatures are hungry.
How superior to this
human confusion of greed
and creed, blood and fire.

VI

The question before me, now that I
am old, is not how to be dead,
which I know from enough practice,
but how to be alive, as these worn
hills still tell, and some paintings
of Paul Cézanne, and this mere
singing wren, who thinks he’s alive
forever, this instant, and may be.

Sharon Olds – Meu filho, o homem

De repente, seus ombros ficam muito mais largos,
como Houdini expandia seu corpo
enquanto o acorrentavam. Parece que foi ontem
que eu o ajudava a vestir o pijama,
guiava suas pernas para o interior dourado,
fechava o zíper e o jogava para cima,
pegando-o no ar. Não consigo imaginá-lo
não sendo mais criança, e sei que devo me preparar,
vencer meu medo dos homens agora que meu filho
vai se tornar um. Não era isso
que eu tinha em mente quando ele irrompeu de mim
como um baú selado atravessando o gelo do Hudson,
quebrou o cadeado, soltou as correntes,
e surgiu em meus braços. Agora ele me olha
do mesmo jeito que Houdini estudava uma caixa
em busca da saída, depois sorria e se deixava algemar.

Trad.: Nelson Santander

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My Son the Man

Suddenly his shoulders get a lot wider,
the way Houdini would expand his body
while people were putting him in chains. It seems
no time since I would help him to put on his sleeper,
guide his calves into the gold interior,
zip him up and toss him up and
catch his weight. I cannot imagine him
no longer a child, and I know I must get ready,
get over my fear of men now my son
is going to be one. This was not
what I had in mind when he pressed up through me like a
sealed trunk through the ice of the Hudson,
snapped the padlock, unsnaked the chains,
and appeared in my arms. Now he looks at me
the way Houdini studied a box
to learn the way out, then smiled and let himself be manacled.

Eamon Grennan – Uma manhã

Procurando pedras raras, dei com a lontra morta
apodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutal
despedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiro
ecoava pela enseada rochosa
onde um cormorão se alimentava e submergia na baía
e de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,
pairou um tempo, e pousou outra vez – um hieróglifo
ou apenas a longevidade refletindo sobre si mesma
entre o céu se encobrindo e o mar levemente encapelado.

Foi na manhã seguinte ao seu sonho de morrer, de ser acolhido
e ouvir que não importava. Uma borboleta ziguezagueou sobre
as pedras acetinadas pelas ondas, e ao me virar
para subir de volta à estrada, um casal numa van azul estava
apreciando seus cigarros após o café da manhã (aroma
azul de fumaça, o denso aroma escuro de café fresco),
conversando em vozes baixas, um respondendo ao outro,
com o rádio dando as notícias do dia atrás deles. Fazia calor.
Tudo parecia em paz. Eu podia sentir o sol emergindo da água.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 06/07/2020

One Morning

Looking for distinctive stones, I found the dead otter
rotting by the tideline, and carried all day the scent of this savage
valediction. That headlong high sound the oystercatcher makes
came echoing through the rocky cove
where a cormorant was feeding and submarining in the bay
and a heron rose off a boulder where he’d been invisible,
drifted a little, stood again – a hieroglyph
or just longevity reflecting on itself
between the sky clouding over and the lightly ruffled water.

This was the morning after your dream of dying, of being held
and told it didn’t matter. A butterfly went jinking over
the wave-silky stones, and where I turned
to go up the road again, a couple in a blue camper sat
smoking their cigarettes over their breakfast coffee (blue
scent of smoke, the thick dark smell of fresh coffee)
and talking in quiet voices, first one then the other answering,
their radio telling the daily news behind them. It was warm.
All seemed at peace. I could feel the sun coming off the water.