Jaime Gil de Biedma – Recorda

Formosa vida que passou e parece
não passar mais…
Desde agora, aprofundo
sonhos na memória: e estremece
a eternidade do tempo lá no fundo.
E de repente um remoinho cresce:
sorve-me, arrasta-me, até que me afundo
numa gruta aonde vai, precipitado,
para sempre, sumindo-se, o passado.

Trad.: José Bento

E. E. Cummings – “o amor é mais muito que olvido”

o amor é mais muito que olvido
mais pouco que memória
mais raro que onda ser aguada
mais comum que dar foras

é mais lunar, demente
por menos nem falar
que o mar todo somente
mais fundo do que o mar

é menos sempre que sucesso
menos jamais que ao vivo
menos maior que um nem começo
menos menor que alívio

é mais solar e são
por mais jamais morreu
que os céus todos que são
mais altos do que o céu

Trad.: Nelson Ascher

Emily Dickinson – Nesta Vida Tão Breve…

Rudyard Kipling – Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!

Trad.: Guilherme de Almeida

William Butler Yeats – Morte

Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

Trad.: Nelson Ascher

T. S. Eliot – Morte Pela Água

Flibas, o Fenício, há quinze dias morto,
Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar
        E o lucro e a perda.
Uma corrente submarina
Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu
Varando o palco da velhice e juventude
Rompendo os vagalhões.
             Gentio ou Judeu
Ó tu que giras o leme e miras o vento na vela,
Considera Flibas, que um dia foi belo e alto como tu.

Trad.: José Francisco C. Costa

Rainer Maria Rilke – Conclusão

A Morte é grande.
Nós, sua presa,
vamos sem receio.
Quando rimos, indo, em meio à correnteza,
chora de surpresa
em nosso meio.

Trad.: Augusto de Campos

Sérgio Sant’Anna – Heavy Metal

Escombros. Um odor de carne chamuscada. Porém não se detecta a presença de cadáveres. Aqui e ali, como sombras, algumas paredes e edificações remanescentes. A torre caída de uma catedral gótica sobre fragmentos de vitrais estilhaçados. A reverberação de suas cores projetando castelos abstratos.

Um bando de delinquentes juvenis, com as mãos nos bolsos, atravessa agora esta profundidade cênica em direção à vitrine de um grande magazine no fundo do cenário. Arrebentam-na com chutes e se atiram sobre as poltronas e sofás do mostruário, enlameando tudo com suas botas.

Um dos rapazes que desaparece, no interior da loja, ressurge com iguarias enlatadas e garrafas. Dá-se início, então, a um festim silencioso, a não ser pela TV transistorizada que lembraram-se de ligar, agora. E que capta, não se sabe de onde ou quando, entre sinfonias tenuemente marciais, a cavalgada de Valquírias seminuas sobre motocicletas a perderem-se de vista numa avenida no meio do deserto. Às suas margens, imensos outdoors marcam os ícones de uma civilização recente.

Enquanto isso, no exterior da mansão improvisada e saqueada, entardece e esfria prematuramente, parecendo que ao calor artificial se sucederá uma noite gélida. Como se em algum ponto se houvesse trincado a crosta atmosférica e através desse vão começasse a soprar um vento cósmico.

Alguém que penetra lentamente nesta paisagem da tarde e é possuído pela alegria solene de achar-se o único no Crepúsculo. Pois se todos desapareceram, não pode haver tragédia para o sobrevivente, mas êxtase.

Usa ele uma capa, com a gola levantada, e assobia uma canção aprendida também não sabe onde ou quando: “Feuilles Mortes”. E galga, então, afundando seus sapatos, o declive de uma duna de cinzas.

E lá de cima, de repente, o panorama que se abre: um rio que passa, caudaloso e pardacento, borbulhante de vapores rumo às longínquas paragens do inabitado.

Estendida, à sua borda, uma adolescente nua, com seus óculos escuros, se oferece aos últimos raios de um sol pálido.

Apressa-se o personagem a ir ter com ela, porque ao último homem deve Deus ter destinado a última mulher e a ele cabe abrigá-la bem junto à costela.

Aproxima-se, porém, em redemoinhos, um vento ferruginoso. E escuta-se, alhures, uma gargalhada desdentada de alguém feliz por finalmente encontrar-se entre os seus pares.

Desfaz-se a menina em pó diante do homem e permanecem apenas os óculos escuros sobre a terra esturricada. Coloca-os o homem sobre os seus olhos, senta-se no chão e nada lhe resta a não ser transformar-se no espectador privilegiado de um clímax.

Anoitece e estampa-se uma lua partida na abóbada celeste.

E, no alto de um monte de entulho, surge o perfil de um violinista com seu instrumento. Sua casaca está rasgada em tiras, seu rosto enegrecido de cinza e pólvora e, no entanto, desde as primeiras notas da melodia ele a retesa em seu arco com toda a dignidade de um rito.

 

Cassiano Ricardo – Ode Pastoril

A paisagem é minha
só porque tenho olhos.
O pássaro é meu
só porque tenho ouvidos.

Amo com a mão as coisas
que o estar aqui me deu.
No universal verde,
sou meu ser, não sou eu.

Em meu léxico lírico
só existem duas palavras,
e uma é irmã da outra:
a manhã e o amanhã.

Sinto que o espaço é a vida
e que o tempo é a morte.
E ponho, entre uma e outra,
Meu rebanho de estrelas.

Laura Amélia Damous – Brevíssima Canção do Amor Constante

Ferindo o tempo
Vestindo eternidade
O meu amor tranqüilo e mudo
Vive em ti
Tão leve e manso
Que tu não o sentes
Tu