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Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

I A seletividade da memória — a cor exata da pele, a textura, o odor de cada côncavo e orifício, o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e a saliva, a coxa arisca, a dobra escura, o beijo salobro, o sabor difícil, a carne assombrada, o esperma…
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Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetóides Mancos”

IV Também já estive aí, no não lugar onde você agora não se encontra. Também não me encontrei. Aliás, foi justamente contra a tal necessidade de seguir alguma rota que jurei lutar. Lutei, perdi, e pronto: agora estou aqui, a alguns centímetros do meu próprio umbigo Se tudo correr bem, também a tua derrota vai…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porém só surge em pleno ar. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Todo porto a que se chega é a meta desejada. E o caminho tomado, por mais torto, acaba sempre sendo a exata…
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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

II Então viver é isso, é essa obrigação de ser feliz a todo custo, mesmo que doa, de amar alguma coisa, qualquer coisa, uma causa, um corpo, o papel em que se escreve, a mão, a caneta até, amar até a negação de amar, mesmo que doa, então viver é só esse compromisso com a…
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Paulo Henriques Britto – Epílogo

Finda a leitura, o livro está completo em sua solidão mais-que-perfeita de couro falso e íntimo papel. Lá fora, o mundo segue, arquitetando as mesmas contingências costumeiras que nunca esbarram numa irrefutável conclusão que se possa resumir em três letras letais, inalienáveis. Que paz será possível nessa selva sem índices, prefácios, rodapés? indaga, da estante…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto,…
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Paulo Henriques Britto – Balanços

II Como saber sem tentar? Como tentar se é tão fácil conformar-se de saída com a ideia de fracasso? Pois fracassar justifica o não se ter nem sequer admitido não querer-se aquilo que mais se quer. É um beco sem saída, mas sempre é melhor que a rua: mais estreito. Acolhedor. Vem, entra. A casa…
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Vinicius de Moraes – Soneto de Quarta Feira de Cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim…
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Paulo Henriques Britto – Mínima Poética

Poesia como forma de dizer o que de outras formas é omitido— não de calar o que se vive e vê e sente por vergonha do sentido. Poesia como discurso completo, ao mesmo tempo trama de fonemas, artesanato de éter, e projeto sobre a coisa que transborda o poema (se bem que dele próprio projetada).…