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Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.
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William Shakespeare – Romeu e Julieta (excerto)

“Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele…
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Nicanor Parra – O que ganha um velho ao fazer ginástica?

e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada – por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach…
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Wislawa Szymborska -Retornos

Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica.…
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Jorge Luis Borges – Os Justos

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não…
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Antero de Quental – Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também…
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John Keats – Ode sobre a Indolência

I Numa certa manhã eu vi as três as figuras, Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,Seguindo atrás da outra, mudas e seguras, Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;Como formas de mármore em alto-relevo Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,Mostraram-se mais uma vez como…
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John Keats – Do Endymion

O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe…
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Yehuda Amichai – Outra Vez o Amor Terminou

Outra vez o amor terminou, como uma boa safra de laranjas, ou como uma boa temporada de escavações, que extraiu das profundezas coisas comovidas que buscavam o esquecimento. Outra vez o amor terminou. E como depois de se demolir uma casa grande e retirar os escombros, visitamos o terreno vazio e quadrado e dizemos: como…
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Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada, não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final,…