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Charles Bukowski – Feras Saltando Através do Tempo

Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano…
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Wislawa Szymborska – As Cartas dos Mortos

Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores. Sabemos quais dívidas não foram pagas. Com quem as viúvas rapidamente se casaram. Pobres mortos, mortos cegos, enganados, falíveis, canhestramente previdentes. Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas. Capturamos o som de testamentos sendo rasgados. Sentados…
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Wislawa Szymborska – Bodas de Ouro

Devem ter sido diferentes um dia, fogo e água, diferindo com veemência, sequestrando e se doando no desejo, no assalto à dessemelhança. Abraçados, apropriaram-se e expropriaram por tanto tempo, que nos braços restou o ar translúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta. Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro…
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Wislawa Szymborska – Natureza-morta com um Balãozinho

Em vez da volta das lembranças na hora de morrer quero ter de volta as coisas perdidas. Pela porta, janela, malas, sombrinhas, luvas, casaco, para que eu possa dizer: Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente, rosa de papel, barbante, faca, para que eu possa dizer: Nada disto me faz falta. Esteja onde…
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Wislawa Szymborska – Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela…
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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas…
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Denise Levertov – O Segredo

Duas meninas descobrem o segredo da vida no inesperado verso de um poema. Eu, que não conheço o segredo, escrevi esse verso. Elas me disseram (por um terceiro) que o tinham achado mas não qual era ele nem sequer qual o verso. É claro que agora, uma semana depois, já esqueceram o segredo, o verso…
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Jaroslav Seifert – Vi Apenas uma Vez

Vi apenas uma vez um sol tão ensanguentado. E nunca mais Descia funesto sobre o horizonte e parecia que alguém havia escancarado as portas do inferno. Perguntei pelo observatório astronômico e hoje sei o porquê. O inferno, conhecemos: está em toda parte e caminha sobre duas pernas. …
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Adília Lopes – A Propósito das Estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz hoje quando penso no rapaz penso em estrelas e quando penso em estrelas penso no rapaz como me parece que me vou ocupar com as estrelas até ao fim dos meus dias…
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Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um…