Tag: Carpe Diem
-
Stanley Kunitz – O retrato

Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode…
-
Robyn Sarah – Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória

E então eu me vi naquela sala pela vez final.Mantive-me firme, com a chave em minha mão,e ouvi o silêncio que era como um som,e percebi como o longo sol da tarde invernalbaixava de maneira oblíqua ao chão fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um diapossuíram estava guardado aqui.) Na janela…
-
Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,uma ursa-negraacaba de despertare lança seu olhar para baixo na montanha.A noite toda,na inquietude vivaz e superficialdo início da primavera, eu penso nela,suas quatro patas pretasesparramando o cascalho,sua língua como uma chama rubratocando a relva,a água fria.Só há uma questão: como amar este mundo?Eu penso nelaerguendo-secomo um rochedo negro e musgoso para afiar…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – As flores do mall

As jovens deusas, noturnasaparições (roupas escuras,prata queimando seus umbigos)na cadência da pista,começam a desbotarcom a premência dos anos,os problemas, talvez os filhosque ainda não têm. Olhamagora para os teus olhos com clarodesprezo (já tens quarenta)e pensas em certas palavrasde Baudelaire que lhes dariascomo se fossem teus frutos(se ao menos se aproximassem), sesoubessem quem foi o…
-
W. S. Merwin – Juventude

Durante toda a juventude estive à sua procurasem saber o que procurava nem como chamá-la acho que eu nem sabia que estava procurando como eu poderia reconhecê-la ao vê-la como aconteceuvezes sem conta quando apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-sepor inteiro naquele momento e deixou que eu a respirasse a tocasse a provasse sabendonão…
-
Jane Kenyon – A pera

Há um momento na meia-idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente mediana, com medo. Nesse dia, o solarde quente e brilhante,deixando-o ainda mais desolado. Isso acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e talvez você nem percebaaté tudo já tenha passado do ponto. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment…
-
Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne…
-
David Ignatow – Para minha filha, em resposta a uma pergunta

Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – A última vez de Casanova

Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora…
