Tag: Carpe Diem
-
Louise Glück – Aubade

Hoje, acima do canto da gaivota,ouvi você me acordar novamentepara ver aquela ave, voandotão estranhamente sobre a cidade,não querendo parar, desejandoa desolação azul do mar — Agora ela contorna o subúrbio;contra si, a luz violenta do meio-dia: Eu sinto a fome delacomo sua mão dentro de mim, um gritotão comum, desafinado — O nosso não…
-
David Budhill – O lenhador muda de ideia

Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores…
-
Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance

Lá em cima, longe desta estrada,Longe das partículas de geadaQue revestem a casca de cada gravanço,E do rijo inseto arqueiro em seu avançoNa escuridão da manhã, pata farpada por pata farpada,Subindo pela haste do trillium,Diretamente ao longo do céu sobre esta estrada agora,As galáxias do aglomerado de Cygnus AEstão colidindo umas com as outras em…
-
Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho
![Pádraig Ó Tuama – Como [não] ser sozinho](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2021/07/alone.png)
Como não ser sozinho Tudo começa com a compreensãode que nada dura para sempre.Por isso, é melhor você começar a fazer as malas agora.Mas, nesse meio tempo,pratique estar vivo. Haverá uma festaem que você sentiráque ninguém está prestando atenção em você.E haverá outraem que atenção é tudo o que você receberá.O que você precisa fazeré…
-
Jennifer Maier – Uma história verdadeira

Um homem idoso estava morrendo em um hospital,contou-me um amigo médico. Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma lojaembaixo do quarto onde nasceu. Ele não tinha ninguém, então uma bondosa enfermeira de Ganasentou-se com ele, uma mão sobre a sua, segurando um sanduíche. As ondasno monitor desaceleraram.…
-
Karl Shapiro – Inverno na Califórnia

É inverno na Califórnia, e no exteriorÉ como o interior de uma floricultura:Uma fresca e úmida culturaDe camélias rosas delimita a vertente;E que raras rosas para um banquete ou um amor,Tão numerosas que semelham uma enchente! Uma fileira de lesmas cruza o verde gramadoDas roseiras ao canteiro de heras;Um composto arsênico é distribuído para elas;O…
-
Eugénio de Andrade – Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo
-
Louis Jenkins – O casal

Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja…
-
William Blake – A mosca

Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa…