Tag: Sofrimento
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Antonia Pozzi – Erros

Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias…
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Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você…
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Rui Pires Cabral – Morada

Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo…
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Stein Mehren – A Pedra

Eu acumulei tanto tempo em cada grama de matéria, diz a pedra que milhões de anos são um mero piscar de olhos em mim Eu conheço a dor do mundo continua a pedra. O peso que é necessário carregar. Peso que é o sofrimento do mundo em espaços banhados de luz Se ficares totalmente calado…
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A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas

1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu…
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Gonçalo M. Tavares – Os Mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais…
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Hilda Hilst – Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastantePara o meu silêncio.Nas prisões e nos conventosNas igrejas e na noiteNão há silêncio bastantePara o meu silêncio.Os amantes no quarto.Os ratos no muro.A meninaNos longos corredores do colégio.Todos os cães perdidosPelos quais tenho sofrido:O meu silêncio é maiorQue toda solidão.E que todo silêncio.
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Álvaro de Campos – Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado…
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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros: – cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo: – quase todas as outras. estão prontas a ajudar desde é claro que isso não lhes tome muito tempo: – quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis. Se fosse como eu quis, não haveria de ser tão sofrido, tão infeliz. Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido, e sim o que, guiado pelo instinto,…