Tag: Infância
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Laurie Lee – A sombra abandonada

Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos…
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Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal —isso deve ter sidohá quarenta anos — ao fundo,apenas prados. Manchasde crocus na relva úmidaEu estava àquela janela:fim de abril. Floresda primavera no quintal do vizinho.Quantas vezes, de fato, a árvorefloresceu no meu aniversário,no dia exato, não antes,não depois? Substituiçãodo cambiante,do que evolui.Substituição terrainexorável pela imagem. O quesei eu deste…
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Alberto Szpunberg – De “Sol de noche”

XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos…
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Raquel Lanseros – Oração

Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e…
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Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como…
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Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que…
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Michael Krüger – À primeira vista

Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um…
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Jaime Gil de Biedma – Valsa de Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite.…
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Adelaide Ivánova – os anos noventa

você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos nunca estiveram presentes pra testemunhar os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os videntes você era apenas um menino quando kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano que causaria sua existência de crisálida taurino…
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Helena Zelic – Gaveta de Casa

Nossas fotos de infância boletins de nota azul três diários à chave hoje abertos duzentos milhões de pequenos museus da desimportância