Tag: Espiritualidade
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Louise Glück – Amor ao luar

Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores,…
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Louise Glück – Fim de inverno

Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o…
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Louise Glück – Manhã clara

Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha,…
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Louise Glück – Flores-de-neve

Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero; entãoo inverno deve ter significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como me abrir outra vezna luz friado início da primavera…
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Louise Glück – Lamium

Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de…
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Louise Glück – Trillium*

Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o…
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Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de…
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um…
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António Ramos Rosa – O jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de…