Tag: Espiritualidade
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Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de…
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Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como…
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T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

“Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre…
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Ricardo Aleixo – Geral

O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
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Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco…
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Charles Simic – O dicionário

Talvez haja uma palavra em algum lugarpara descrever o mundo nesta manhã,uma palavra para o jeito como a primeira luzse deleita em perseguir as sombraspelas vitrines e entradas das lojas. Outra palavra para o modo como ela se detémsobre um par de óculos de aros finosque alguém deixou cair na calçadana noite passada e cambaleou…
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Lope de Vega – Desmaiar, ousar, ficar furioso

Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e…
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Juan Vicente Piqueras – História universal

Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa…
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Antonia Pozzi – Erros

Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias…
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Rebecca Elson – Antídotos para o medo da morte

Às vezes, como antídotoPara o medo da morte,Eu como as estrelas. Nessas noites, deitada de costas,Eu as sorvo da escuridão que as apagaAté estarem todas, todas dentro de mim,Ardentes e pungentes. Às vezes, em vez disso, eu me misturoA um universo ainda jovem,Ainda quente como o sangue: Sem espaço exterior, apenas espaço,A luz de todas…