Tag: Tempus Fugit
-
Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado.…
-
Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar…
-
Antonio Cicero – Prólogo

Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e…
-
Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
-
Ian Hamilton – Poema de Aniversário

Firme em suas mãos Sua caneca de barbear com a Exposição do Império. Você a conserva agora Como escarradeira, as pombas presunçosas, O 1938 dela Manchados por gotas de seu sangue. Esta noite, Meio sufocado, canceroso, Desiludido, Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana E espera por um ataque. Trad.: Nelson Santander…
-
Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
-
Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
-
Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
-
Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
-
Manuel de Freitas – CCB, 2002

Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.