Tag: Tempus Fugit
-
José Mateos – Canção 1

Ainda quase um meninoe sentaste a esperar àbeira do grande silêncio. Pensavas que, a sóscom tua voz, talvez pudessesroubar ao mar seu segredo. Foi-se a tua juventude.Mudos passaram os anose agora estás oco por dentro. Poderias, se enfim soasseo acorde do grande silêncio,chegar a cantar seu eco? Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 1…
-
Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco…
-
Helder Moura Pereira – “Chegamos ao fim do dia…”

Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta…
-
Armando Freitas Filho de “Rol”

150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim…
-
Rui Costa – Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua…
-
Rui Pires Cabral – Morada

Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo…
-
Joan Margarit – A Espera

Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por…
-
Eugénio Andrade – Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
-
John Mateer – s/ título

Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias em mente, comemorando esse retrato da jovem estudante de história de arte que se tornaria a mulher do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria de uma janela do apartamento deles, e que, por ter existido, proliferaria, como tudo o que pode…
