Tag: Silêncio
-
Dennis O’Driscoll – Fora de controle

Preocupem-se, mães: vocês têmboas razões para perder o sono,para deixar a imaginação correr soltaenquanto se deitam na cama, sem contar carneirosmas vendo filhos e filhaslevados para o abate como cordeirosna carnificina das noites de sexta. Fiquem de prontidão, mães –nunca se sabe sua sorte –para a batida que quebraria o silêncio como o choquede um…
-
Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase…
-
Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo…
-
Kelli Russell Agodon – Capelas imaginárias

Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo…
-
Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta,…
-
Victoria Kennefick – Depoimento

Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até…
-
Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem…
-
Robyn Sarah – Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória

E então eu me vi naquela sala pela vez final.Mantive-me firme, com a chave em minha mão,e ouvi o silêncio que era como um som,e percebi como o longo sol da tarde invernalbaixava de maneira oblíqua ao chão fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um diapossuíram estava guardado aqui.) Na janela…
-
Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,uma ursa-negraacaba de despertare lança seu olhar para baixo na montanha.A noite toda,na inquietude vivaz e superficialdo início da primavera, eu penso nela,suas quatro patas pretasesparramando o cascalho,sua língua como uma chama rubratocando a relva,a água fria.Só há uma questão: como amar este mundo?Eu penso nelaerguendo-secomo um rochedo negro e musgoso para afiar…
-
Charles Simic – Igreja de madeira

É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças…