Categoria: Poema
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela…
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Táxis Varvitsiótis – Assim também a morte

À memória de Andréa Karandonis Asa ou marfim É tudo espesso Como o ferro e a madeira Como a proa inquebrável De um navio Rumo ao infinito Assim também a morte Espessa impenetrável Como galeria de mina Muro indestrutível Poço sem fundo Carvão aceso Para alcançar-lhe o duro cerne Tons de rasgar O pano entretecidos…
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Nuno Júdice – Natal

Deito-me à sombra da árvore sem sombra – a árvore cujas raízes nascem da infância – e é natal, e nunca mais chega a meia-noite dessa noite sem fim. Rezo pelas mais obscuras incertezas, pelas almas que hesitam nas encruzilhadas, pelos vagabundos que esperam a meia-noite para se sentarem à porta da igreja, na única…
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo permanece das almas, como a brisa que surge depois que alguém passou, e que faz estremecer uma leve cortina na janela. Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como as nossas, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura,…
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Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantasvelhas feridas daremos nós às chamas,de que nos livraremos para não o recordarnem sequer dos piores pesadelos diurnos?Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiraslimparemos a vida para nos renovarmos,para o tempo que reste, para o que consigamosroubar a tantas mortes?Chega a noite de São João, continuamosvivos e juntos apesar…
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paulo leminski – sossegue coração

sossegue coração ainda não é agora a confusão prossegue sonhos afora calma calma logo mais a gente goza perto do osso a carne é mais gostosa
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Antonio Cicero – Prólogo

Por onde começar? Pelo começo absoluto, pelo rio Oceano, já que ele é, segundo o poeta cego em cujo canto a terra e o céu escampo e o que é e será e não é mais e longe e perto se abrem para mim, pai das coisas divinas e mortais, seu líquido princípio, fluxo e…
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Luis Alberto de Cuenca – Quando Penso nos Velhos Amigos

Quando penso nos velhos amigos que saíram de minha vida, unindo-se a más mulheres que alimentam seu medo e os enchem de filhos para tê-los por perto, controlados e inermes. Quando penso nos velhos amigos que se foram para o país da morte, sem passagem de volta, só porque procuraram o deleite nos corpos e…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.
