Categoria: Poema
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José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitério comovente ninguém, a não ser o latido de algum cão, o canto de um galo vermelho, a tosse de um pequeno deus desempregado. Também pude reparar como saía de uma velha campa abandonada um exército de formigas sob um intenso céu azul que nada respondia.
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Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
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Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
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Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe quando estamos num lugar pela última vez. Numa casa que vai ser demolida, numa sala provisória que vai encerrar, num velho café que mudará de ramo, como página virada jamais reaberta, como canção demasiado gasta, como abraço tornado irrepetível, numa porta a que não voltaremos.
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Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe – o mar, que…
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Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou

Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.
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Wang Wei – Dedicado a Chang Yin

Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que…
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Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida

A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv,…
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Manuel de Freitas – CCB, 2002

Abrem-se devagar os túmulos – e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d’nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.