Categoria: Poema
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta…
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Vasco Gato – Eterno Outono

Estou com a idade pousada nas mãos. Explico-me com dedicação aos berços fundos onde cada coisa dorme o seu medo de morrer. Há na tristeza um perigo de terminar: o eterno outono parece belo a quem perdeu todas as sementes. Pergunta-se um nome e ninguém responde. Onde fica essa ilha a que só chegamos por…
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Nuno Júdice – Poema (Arredores)

A brancura dos ossos, em contraste com a terra argilosa, com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar leite, papel, cal, e também as tuas mãos – frias. Bebo o seu brilho numa noturna memória. Uma contaminação de corpos não reduz a minha solidão; nem a música, nem o riso, nem o vinho. Lágrimas…
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Helder Moura Pereira – “Eu não tinha nada de felino…”

Eu não tinha nada de felino, tu sabias que eu não tinha nada de felino. Nenhum de nós se admirou quando medi mal a distância e falhei o salto. Enquanto ia no ar parecia que era um salto bom, porém houve qualquer coisa que correu mal e caí com estrondo no chão. Ninguém riu. Não…
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Filipa Leal – Entrevista de Emprego

Desculpe, tem toda a razão, não pensei que fosse umaspecto impeditivo,prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro,ao nosso relacionamentoprofissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras,sim,e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menoscuidado com elas,e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as comrespeito,o senhor sabe pontuar…
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César Vallejo – Paris, Outubro de 1936

De tudo isto eu sou o único que parte. Deste banco eu me vou, de meus calções, de minha grande situação, de minhas ações, de meu número dividido de lado a lado, de tudo isto eu sou o único que parte. Dos Campos Elísios ou ao dar a volta à estranha viela de la Luna,…
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Maria do Rosário Pedreira – Ondas

Dei-te o meu corpo como quem estende um mapa antes de viagem, para que nele descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses os dedos devagar, como fazem as aves quando encontram o verão. Se me tivesses tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços como uma escarpa pronta a desabar, ou uma cidade do litoral a definhar…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céus nem elevam-se abstratos tornam-se apenas retratos lado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvel austero e silencioso do tio tuberculoso que esquivo me espia. A avó já está fria mas me olha com ternura tece uma colcha escura para as bodas da família, Mortos não sobem trilhas de…
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Roger Wolfe – O amor, suponho

“O amor, suponho”, um poema de Roger Wolfe que reflete sobre a dificuldade de escrever um poema de amor para a própria esposa, associando o amor a raros instantes de felicidade e questionando se vale a pena desperdiçá-los tentando transformá-los em versos.
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Ian Hamilton – Pai, Morrendo

Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você…