Categoria: Poema
-
José Paulo Paes – De malas prontas

Vários dos seus amigos mortos dão hoje nome a ruas e praças. Ele próprio se sente um pouco póstumo quando conversa com gente jovem. Dos passeios, raros, a melhor parte é a volta para casa. As pessoas lhe parecem barulhentas e vulgares. Ele sabe de antemão tudo quanto possam dizer. Nos sonhos, os dias da…
-
Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem…
-
Ferreira Gullar – Fim

Como não havia ninguém na casa aquela terça-feira tudo é suposição: teria tomado seu costumeiro banho de imersão por volta de meio-dia e trinta e de cabelos ainda úmidos deitou-se na cama para descansar não para morrer queria dormir um pouco apenas isso e assim não lhe terá passado pela mente – até aquele último…
-
Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava…
-
Wislawa Szymborska – Fotografia de 11 de setembro

Saltaram dos andares em chamas —um, dois, alguns maisacima, abaixo. A fotografia os susteve em vidae agora os mantémsobre a terra em direção à terra. Cada um ainda é um todocom um rosto próprioe o sangue bem escondido. Há bastante tempopara os cabelos se soltareme dos bolsos caíremchaves, dinheiro trocado. Ainda estão ao alcance do…
-
Delmore Schwartz – All night, all night

I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da…
-
Armando Freitas Filho – Autobiografia até agora

No Cineac antes da descoberta do Brasil com a mãe a tiracolo vendo o Arqueiro Verde (um Robin Hood de segunda mão) disparando suas flechas morais. Depois, punhetas, colégios, lápis a primeira caneta, poesia, pin-ups futebol, jogo de botão e puteiros: a sessão começa quando você chega. Agora, no escuro, meio Zé Carioca trocando de…
-
Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]
![Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/09/tga-9211-9-6-404-1_10.jpg)
Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo…
-
Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna…
-
José Paulo Paes – Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na…