Categoria: Poema
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Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu

Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que…
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Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d’alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a…
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A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas…
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Tristan Corbière – Paisagem má

Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados…
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Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável…
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Goethe – Aos leitores amigos

Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem…
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Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anosde trabalho árduo e uma longa jornada,você está de pé no centro de seu quarto,casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país,sabendo enfim como chegou ali,e diz: isto é meu, é o mesmo momento em que as árvores soltam de você seus braços macios,as aves reassumem suas vozes,as falésias…
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Michael Krüger – À primeira vista

Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um…
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Ferreira Gullar – Thereza

Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
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Eugénio de Andrade – Canção Breve

Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que…