Categoria: Poema
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um…
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Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o…
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Braulio Tavares – [para mim tanto faz]
![Braulio Tavares – [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/10/images-13.jpeg)
para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
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Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo

Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
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Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a…
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João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de…
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António Ramos Rosa – O jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de…
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Hans Magnus Enzensberger – Anúncio de pedra

Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça,…
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Wislawa Szymborska – Visto do alto

Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem…