Categoria: Poema
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José Paulo Paes – Dúvida

Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um…
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Ferreira Gullar – Lições de um gato siamês

Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
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Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a…
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Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora…
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Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém…
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Chacal – como era bom

o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
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Wislawa Szymborska – Autotomia

Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na…
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Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do…
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Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará…
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Théodore Fraenckel – Elegia

X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida. Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo. Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica quando, suave, no tom do quadro, leve se sente o esboroar do espírito… Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura. Por…