Categoria: Poema
-
Louise Glück – Matinas (2)

Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras…
-
Louise Glück – Matinas* (1)

Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente…
-
Louise Glück – A íris selvagem

No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo…
-
Nelson Santander – Apresentação de “The Wild Iris”, de Louise Glück

Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas…
-
Wendell Berry – Antes do Anoitecer

Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro…
-
Joseph Stroud – Primeira Canção

Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha…
-
Wislawa Szymborska – Adolescente

Eu — adolescente? Se de repente ela me aparecesse aqui, agora, deveria saudá-la como a uma pessoa próxima, mesmo que me pareça estranha e distante? Derramar uma lágrima, beijar a testa somente pelo motivo de termos a mesma data de nascimento? Tanta dessemelhança entre nós que talvez só os ossos sejam os mesmos, o formato…
-
Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada…
-
Tarso de Melo – Raiz e minério

ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os…
-
Manuel Vilas – Delia’s Gone

“Delia’s Gone”, um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.