Apresentação de “The Wild Iris”, de Louise Glück

Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas esparsos dela – como “Outubro”, “Paisagem” e “Nostos”. Já são cerca de 60 poemas traduzidos. O encantamento diante de seus poemas continua o mesmo. Atualizo essa “apresentação”, obviamente, porque hoje veio a público a notícia de que Louise – atualmente com 77 anos de idade – foi a premiada com o Nobel de Literatura de 2020. No comunicado que faz a imprensa, a Academia Sueca resume os motivos que levaram à escolha da poeta para o prêmio:

“O Prêmio Nobel de Literatura 2020 é concedido à poetisa americana Louise Glück por sua inconfundível voz poética que, com austera beleza, torna universal a existência individual”

Não há muito o que acrescentar. Espero que o Prêmio Nobel desperte o interesse de novos leitores e, principalmente, que alguma editora brasileira se aventure em publicar ao menos parte de sua obra em português.

Enquanto as editoras não se mexem, sintam-se à vontade nesse humilde blog para apreciar a beleza da poesia de Louise Glück. Perca-se entre as flores, o vento, o mato, o sol, o mundo, a contemplação, a busca por Deus, os desapontamentos, a tristeza calma de seus poemas. Você não vai se arrepender”

Nelson Santander

Percorrendo os infindáveis mundos virtuais da internet a fim de colher alguns poemas para este humilde blog, me deparei com uma poeta ainda pouco conhecida no Brasil: Louise Glück. No site da Academy Poets of America encontramos uma breve bio-bibliografia dela:

Louise Glück nasceu em Nova York, em 22 de abril de 1943, e cresceu em Long Island. É autora de vários livros de poesia, sendo o mais recente deles Faithful and Virtuous Night (Farrar, Straus, and Giroux, 2014), que ganhou o Prêmio Nacional do Livro de 2014 em Poesia; Poems 1962-2012 (Farrar, Straus e Giroux, 2012); A Village Life: Poems (Farrar, Straus e Giroux, 2009); Averno (Farrar, Straus e Giroux, 2006), finalista do Prêmio Nacional do Livro de 2006 em Poesia; The Seven Ages (Ecco Press, 2001); e Vita Nova (Ecco Press, 1999), ganhadora do Prêmio Bingham de Poesia, da Boston Book Review e do New Yorker’s Book Award em Poesia. Em 2004, a Sarabande Books lançou seu poema em seis partes “October”, em chapbook.

Seus outros livros incluem Meadowlands (Ecco Press, 1996); The Wild Iris (Ecco Press, 1992), que recebeu o Prêmio Pulitzer e o Prêmio William Carlos Williams da Sociedade de Poesia da América; Ararat (Ecco Press, 1990), pela qual recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Rebekah Johnson Bobbitt da Biblioteca do Congresso; e The Triumph of Achilles (Ecco Press, 1985), que recebeu o National Book Critics Circle Award, o Boston Globe Literary Press Award e o Melville Kane Award da Poetry Society of America.

Em uma resenha na New Republic, a crítica Helen Vendler escreveu:

“Louise Glück é uma poeta de presença forte e assustadora. Seus poemas, publicados em uma série de livros memoráveis nos últimos vinte anos, alcançaram a distinção incomum de não serem nem ‘confessionais’ nem ‘intelectuais’ nos sentidos usuais dessas palavras”.

Glück também publicou uma coleção de ensaios, experimentos e teorias: Essays on Poetry (Ecco Press, 1994), que ganhou o Prêmio PEN / Martha Albrand de Não-ficção. Suas honrarias incluem o Prêmio Bollingen em Poesia, o Lannan Literary Award for Poetry, o Prêmio Sara Teasdale Memorial, a Medalha de Aniversário do MIT e bolsas das Fundações Guggenheim e Rockefeller e da National Endowment for the Arts.

Em 1999, Glück foi eleita Chancellor of the Academy of American Poets. No outono de 2003, foi nomeada como a décima segunda poeta laureada consultora da Biblioteca do Congresso americano. Ela atuou como juíza da Yale Series of Younger Poets de 2003 a 2010.

Em 2008, Glück foi selecionada para receber o Prêmio Wallace Stevens pelo domínio da arte da poesia. Sua coleção, Poems 1962-2012, recebeu o prêmio Los Angeles Times Book 2013. Em 2015, recebeu a Medalha de Ouro por Poesia da Academia Americana de Artes e Letras.

Ela é escritora-residente na Universidade de Yale.

O impacto da leitura de alguns de seus poemas foi tão devastador que, investido de um incomum senso de urgência, me impus a tarefa de traduzir e publicar todos os grandes poemas que compõem aquela que é considerada a obra-prima da autora: “The Wild Iris“. A obra – ganhadora de vários prêmios literários, dentre os quais o Pulitzer de Poesia, em 1993 – vem colhendo admiradores no mundo todo desde que publicada pela primeira vez, em 1992, pela Ecco Press.

Sobre este livro, assim testemunhou a também poeta norte-americana Fleda Brown:

“(…) É sobre esse livro (The Wild Iris) que eu quero falar e ler um pouco. Eu o acho um feito extraordinário. Os poemas são pequenas coisas estranhas, dando vozes às flores e a Deus, assim como ao poeta humano. Quem tentaria falar como uma flor, sob o ponto de vista de uma flor, sem soar piegas? Quem tentaria falar pela voz de Deus? Mas ela conseguiu, e em cada poema, a perspectiva é uma que não esperaríamos. Não há sentimentalismo aqui. Cada poema abala nossa maneira usual de ver o mundo.

Na obra há vários poemas com o mesmo título, chamados simplesmente Matinas, ou Vésperas, de modo que o livro parece um panfleto de orações católicas, marcando a passagem do dia em orações. Mas, meu Deus, as orações não são o que esperamos!

(…)

Um dos temas do livro, um dos temas persistentes de Glück, é que não há esperança. Estamos todos condenados. Os poemas são sombrios, sem dúvida. Mas, como Dylan Thomas diz em de seus poemas, nós cantamos em nossos grilhões como canta o mar.

Os poemas geralmente parecem curtos e fáceis em seu idioma, mas eles me lembram a simplicidade dos poemas de Robert Frost – eles apenas parecem simples.

(…)

Os poemas de Louise Gluck não se encaixam no modo “confessional” ou “anedótico”. Você sabe como esses poemas são – por sua intensidade, esses poemas precisam contar uma história para manter nossa atenção. Mas os poemas de Glück são também intensamente pessoais – você pode sentir isso nos poemas dela. Eles são pessoais e líricos – eles ficam em um lugar e cantam. O que eu admiro é a força da fala, da dicção, do ritmo, do humor perfeitamente realizado dos poemas. Eles são completamente diferentes de tudo.”

(http://fledabrown.com/columnist/michigan-writers-on-the-air/louise-gluck/)

Outra bela resenha do livro é esta, da também poeta Rachel Mennies:

“Quando li pela primeira vez The Wild Iris, de Louise Glück, não estava sofrendo. Sentei-me no meu futon de anos, preparando-me para a discussão do texto em minha oficina de pós-graduação na semana seguinte. Peguei o livro em silêncio e li-o várias vezes, totalmente consumido. Eu consumi as linhas bem definidas de Glück, seus verbos exatos. (Sua prosódia instruirá jovens poetas para sempre na tarefa ousada e crucial da escolha das palavras, da imagem tão precisa e correta que seus leitores se atrevem a chamá-la de perfeita.) Eu lamentei e encontrei conforto em sua coragem em face do própria luto – mas quando li The Wild Iris pela primeira vez, não estava sofrendo. Em vez disso, eu usava o sofrimento de Glück como um casaco no verão – perplexa diante de sua força de aprisionamento, incerta se alguma vez eu necessitaria da densidade de sua dor.

Desde então, eu achei Glück, em seus momentos de precisa escuridão, mais reconfortante em momentos de tristeza – talvez haja algo no ruído confuso da tragédia nacional, em suas aleatórias e ininterruptas reportagens, que me fazem desejar uma linguagem tão exata que possa caber na ponta de uma agulha. Em dezembro do ano passado, quando o tiroteio em Newtown levou vinte filhos de seus pais, o poema que leva o nome do livro desdobrou-se em meu cérebro. Antes, em setembro de 2011, eu assisti no noticiário local de Pittsburgh o presidente pousar o Air Force One em nosso aeroporto, a caminho de Somerset, nas proximidades, para lamentar o décimo aniversário do acidente do voo 93. Na época, também, eu alcancei o The Wild Iris, e li o mesmo poema:

No fim do meu sofrimento
havia uma saída.

Ouça-me: do que você chama de morte,
eu me lembro.

Já escrevi antes sobre esse poema e sobre o poder da poesia em nos ajudar, em comunidade, com nossos traumas. Depois de Newtown, voltei a Glück não pela comunidade, mas por seu intimismo; por suas linhas essenciais e assustadoras, procurei e encontrei um conforto inesperado. Em The Wild Iris, a precisão de Glück muitas vezes parece uma ordenação, uma espécie de batizado taxonômico. Esse ato de nomear, essa ordenação gritante do universo, conduz a sua oradora, mesmo quando ela sofre, ao alarido – de volta ao mundo grande e terrível. “Eu nem sabia que me sentia triste”, diz a oradora em seu poema Trillium, “até que essa palavra apareceu, até que eu senti / a chuva fluindo de mim.” E no final de ‘Clear Morning ‘, o tipo de manhã que levou o Presidente a Pittsburgh, lembro-me de pensar “a oradora afirma ‘Estou preparado agora para impor / clareza a todos vocês.” Na agitação sombria do trauma nacional, no fino luto televisivo e banalidades exageradas gesticulando suavemente em direção ao sofrimento, precisamos de uma clareza imposta sobre nós dessa maneira exata e imparcial. Preciso, brutalmente, de cada evento inevitável e brutal.

E agora, como um dos poucos livros com os quais cresci, que realmente amei, ainda me surpreendo com meu apego ao texto – eu o alcanço repetidamente, toda vez sem saber porque, sempre certo de que encontrarei o que estava procurando. Penso muitas vezes na oradora de ‘Clear Morning’, como se ela se dirigisse a mim diretamente, estudando-me a partir do texto: “Eu já os observei por tempo suficiente, / eu posso falar com vocês da maneira que eu quiser -” O texto me nomeou, me incluiu em seu sofrimento. Pode e fala comigo como deseja. (…).”

https://pankmagazine.com/2013/02/12/books-we-cant-quit-the-wild-iris-by-louise-gluck-a-review-by-rachel-mennies/

Amanhã, The Wild Iris, o poema que inaugura o livro com o mesmo nome. E nos dias subsequentes os demais poemas, na ordem em que aparecem no trabalho.

Nelson Santander

10 comentários em “Apresentação de “The Wild Iris”, de Louise Glück

  1. Permita-me parabenizá-lo. Sua iniciativa visionária (sim, visionária, porque, acredito, é preciso um certo grau de projeção sensitiva sobre o entorno cotidiano e, logo, repetitivo em que a literatura, como todo o resto parece ter submergido, para reconhecer uma voz poética autêntica, isso, independente de sua qualidade intrínseca. Já que, muito do que foi publicado e ainda é possui relativa qualidade. Então, qualidade, embora imprescindível, não decide acerca da importância real de uma obra de arte. Agora, autenticidade, essa impressão/sensação de que o artista está nos apresentado seja lá o que for pela primeira vez, por mais que pensávamos conhecê-lo é coisa primordial.Quantos escritores são ou foram capazes disso? Lembro apenas de um punhado. Dentre eles, o extraordinário Rainer Maria Rilke. Aliás, a dicção e temática de “A Iris Selvagem” lembrou-me, em tom menor, é evidente, dos poemas de o “Livro de Horas” de Rilke. A propósito, se me permite a sugestão, você poderia publicar alguns deles em seu blog. Abraços.

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    1. Amigo, muito obrigado por sua generosidade. Suas palavras são um incentivo para que eu continue. A tradução de um poema não é algo banal, dá trabalho e quase nenhum retorno, digamos, espiritual – que normalmente se resume às poucas vezes em que sentimos que a tradução ficou boa. Mas eu prossigo porque não consigo descobrir um poema novo, um trecho de narrativa genial ou uma letra de canção que me emociona e não compartilhar. Quando alguém faz um comentário tão eloquente como o seu, eu sinto que estou fazendo a coisa certa, pois, de alguma forma, consegui tocar – ainda que de forma indireta – a alma de um leitor. Obrigado mesmo. E volte sempre!

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      1. Caro Nelson, me considero um filho pródigo da poesia. Um que reluta (por orgulho? por ressentimento?, por não considerar-me mais digno?) a voltar à casa. Poesia, “noutra vida”, significou tudo para mim. Mas mesmo assim, mesmo naquela época, sentia que a traía de alguma forma abjeta, talvez por isso a tenha renegado por tanto tempo; talvez a causa se deva a uma espécie despeito às avessas, não sei ao certo. O fato é que já não lembro a última vez que li, antes de hoje, menos ainda a última vez que escrevi poesia. Nesse mundo de banalidades compreendi afinal que é preciso aceitar o fardo. A poesia, como de resto a grande arte não é para aqueles que procuram a aprovação ou a condescendência. Mas, há sempre a nostalgia, ou quem sabe o remorso a nos fazer lembrar que já fomos corajosos, capazes de pequenos atos de renúncia, sem contudo vermos nisso um sacrifício intolerável. Enfim, suas traduções precisas da bela, impactante, e ainda assim singela voz da Louise Gluck, me fizeram pensar que talvez a porta, que julgava até então cerrada, ainda esteja aberta para mim. Muito obrigado.

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      2. Caro Luis, que depoimento comovente. E, para mim, o que você relata se reveste de uma importância ainda maior pelo fato de sua “reconversão” ter sido disparada por minhas humildes traduções da poetisa gigante que é Louise Glück. Que essa sua reconciliação com a poesia seja perene e enriquecedora. Do que depender de meu blog, de minhas traduções e de minhas seleções de poemas, farei de tudo para que essas segundas núpcias valham a pena. Obrigado mais uma vez.

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