Categoria: Poema
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Louise Glück – Vento em retirada

Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo…
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Louise Glück – Scilla

Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são…
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Louise Glück – Matinas (4)

Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me…
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Louise Glück – Matinas (3)

Perdoe-me se eu disser que o amo: aos poderosossempre se mente, pois os fracos são sempremovidos pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelaquase nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou é mais como a dedaleira, inconstante, brotando primeirouma espiga rosa na encosta atrás das margaridas,e no…
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Louise Glück – Fim de inverno

Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o…
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Louise Glück – Neve de primavera

Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando você reagir. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta encrostada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus gritos, e gritos antes dos seus,e…
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Louise Glück – Manhã clara

Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha,…
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Louise Glück – Flores-de-neve

Você sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabeo que é o desespero? Entãoo inverno deve ter um significado para você. Eu não esperava sobreviver,a terra me sufocando. Não esperavadespertar outra vez, sentirna terra úmida meu corpocapaz de responder outra vez, lembrandoapós tanto tempo como brotar outra vezna luz friada primavera mais precoce…
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Louise Glück – Lamium

Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de…
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Louise Glück – Trillium*

Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o…