Categoria: Poema
-
Ada Limón – Estrelas extintas

Aqui fora, até as árvores se curvam. A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietudetão muda que parece estar quase em outro ano.Ultimamente, sou uma lareira de aranhas: um ninho de tentativas.Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo pra fora, as…
-
Ferreira Gullar – O Que Se Foi

“O Que Se Foi”, um poema de Ferreira Gullar que confronta a irreversibilidade do passado e revela a contradição íntima entre a lucidez da perda e o coração que insiste em pulsar pelo que não volta.
-
Robert Frost – Nada que é de ouro pode permanecer

No mundo, o ouro é o verde elementar,Sua matiz mais difícil de conservar.A flor é a sua inaugural semente;Não obstante por um instante somente. Depois, folha desaparece sob folha.E assim, no pesar o Paraíso mergulha,E a aurora se transforma em amanhecer.Nada que é de ouro pode permanecer. Trad.: Nelson Santander Nothing gold can stay Nature’s…
-
Bei Dao – Resposta

A degradação é o passaporte do vilão,A nobreza é epitáfio do nobre.Olhe: como o céu dourado é inundadodo reflexo das sombras torcidas dos mortos. Passada a época do gelo,Por que ainda há gelo em toda a parte?Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança,por que mil velas ainda competem no Mar Morto? Eu vim para…
-
Mary Oliver – A serpente negra

Foi quando a serpente negraapareceu na estrada de manhã,e o caminhão não conseguiu desviar –morte, é assim que acontece. Agora ela jaz enrolada e inútilcomo um velho pneu de bicicleta.Eu paro o carroe a levo para o mato. Ela é fria e reluzentecomo um chicote trançado, bela e tranquilacomo um irmão que morreu.Eu a deixo…
-
Wendell Berry – A cobra

No final de outubroencontrei no chão da florestauma pequena cobra cujas costastinham o padrão da escuridãodas folhas mortas em que ela estava deitada.Seu corpo fora engrossado por um ratoou um pequeno pássaro. Ela estava fria,tão entorpecida com a barriga cheiae o ar do outono que mal se dava ao trabalho de mexer a língua.Eu a…
-
William Butler Yeats – A Segunda Vinda

Girando em círculos sempre maioresJá não ouve o falcão ao falcoeiro;Tudo desaba; o próprio centro hesita;Livre, a anarquia reina sobre o mundo,Livre a maré sanguinolenta: em tudoSe afogam os rituais da inocência;Os melhores vacilam e os pioresÀ intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,Eis que a Segunda Vinda se anuncia,A Segunda…
-
Györy Somlyó – Fábula da dupla-hélice

Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.:…
-
Cassiano Ricardo – O Cacto

This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços,…
-
Ellen Bass – Ode à repetição

Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente…