Categoria: Poema
-
Dan Gerber – Para Deneb

Tão impossivelmente distante,dizem os eruditos astrônomos,mais remotado que qualquer outra Coisa queeu já tenha visto,calorosa companheira de uma noite de verão,um quarto de milhão de vezesa luz do nosso sol,obliterando os quatrilhõesde milhas da escuridão à sua volta,ainda assim tão familiar,tão em casa com as estrelas do nosso bairro,aqui na cauda do Cisne,tão serena em…
-
Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem…
-
Joan Margarit – Ser velho

Entre as sombras dos galose dos cachorros dos pátios e curraisde Sanaüja, abre-se um buracoque se enche de tempo perdido e chuva sujaenquanto as crianças caminham para a morte.Ser velho é uma espécie de pós-guerra.Sentados à mesa da cozinha,limpando as lentilhasao anoitecer do braseiro,vejo os que me amaram.Tão pobres que no fim daquela guerrativeram que…
-
Philip Larkin – Aubade

De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara.Olho o negror sem som, me levantando às quatro.Em tempo, a borda da cortina vai estar clara.Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato:A morte infatigável, um dia mais perto,Tornando inviável todo pensamento, excetoO de onde, como e quando a minha vai chegar.Uma pergunta…
-
Jane Hirshfield – Otimismo

Tenho admirado a resiliência cada vez mais.Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espumasempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosatenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,ela se volta para o outro lado. Uma inteligência cega, é verdade.Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,mitocôndrias, figos — toda esta…
-
Konstantinos Kaváfis – À Espera dos Bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado?Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje.Que leis hão de fazer os senadores?Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedoe de coroa solene se assentouem seu trono, à…
-
Moya Cannon – Mãos

Mãos para Eamonn and Kathleen Foi em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,exceto que é cheia de pessoas —a vida de cada uma delas um mistériomaior do que a Amazônia —foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de vooavançava aos poucos para além da…
-
Ferreira Gullar – Despedida

Eu deixarei o mundo com fúria.Não importa o que aparentemente aconteça,se docemente me retiro. De fato,nesse momentoestarão de mim se arrebentandoraízes tão fundasquanto estes céus brasileiros.Num alarido de gente e ventaniaolhos que ameirostos amigos tardes e verões vividosestarão gritando a meus ouvidospara que eu fiquepara que eu fique Não chorarei.Não há soluço maior que despedir-se…
-
Dylan Thomas – Não vás tão docilmente

Não vás tão docilmente nessa noite linda;Que a velhice arda e brade ao término do dia;Clama, clama contra o apagar da luz que finda. Embora o sábio entenda que a treva é bem-vindaQuando a palavra já perdeu toda a magia,Não vai tão docilmente nessa noite linda. O justo, à última onda, ao entrever, ainda,Seus débeis…
-
Ferreira Gullar – Praia do Caju

Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto. Nesta tarde de férias, disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderá de novoo lumeque na carne das horas se perdeu. Ah, se perdeu!Nas águas da piscina se perdeusob as folhas da tardenas vozes conversando na varandano riso de Marília no vermelhoguarda-sol esquecido na calçada. O que…