Categoria: Nelson Santander – Traduções
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José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla Sempre, frente à dor, estamos sozinhos, não se quer viver, e tu sabes disso. Há um instante viste, na penumbra de um quarto de hospital, a mão hirta, seu rosto naufragado que o lençol cobriu. E era como mirar-se em um espelho e ver que somos menos que essa ausência, menos que…
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Joan Margarit – Ulisses nas Águas de Ítaca

Estás chegando a ilha e agora sabes o que é o acaso. Viver, o que significa. Teu arco será poeira em uma estante. Poeira será o tear e a peça que ele tece. Os pretendentes, que no pátio acampam, são sombras dos sonhos de Penélope. Estás chegando a ilha enquanto explode o mar contra as…
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Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Não falta quem suponha que em sessentabilhões de anos voltaremosa estar como agora (ao que parece,o Espaço se estica para depois,elástico, encolher e novamenteoutra vez dilatar-se), repetindotu, as profundidades desses olhos,eu, este esperar a morte de tuamão agonizante nas minhas, aquimesmo, precisamente nesse lugar. Mas, casoseja tudo uma farsa e nunca maisa história se repita…
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Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Moça, arranca as rosas, não esperes até manhã.Corta-as sem parar, desenfreadamente,sem te deteres a pensar se são boas ou más.Que não reste nenhuma. Acaba com os roseiraisque encontrares pelo caminho e deixa os espinhospara tuas colegas do colégio. Desfrutada luz e do ouro enquanto puderes e entregatua beleza a esse deus rechonchudo e melancólicoque passeia…
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Felipe Benitez Reyes – “Collige Rosas”

Consumir este diacomo se fosse o último. Queimá-locomo o último cigarro que resta ao insone.Demorá-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele — como essa moedaque o suicida hesitante lança ao ar —o exato sentido da vida essa desordemde quimeras que morrem nas mãoscomo rosas pisadas,sangrando cor e aturdimento.…
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Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Já estás com quem queres. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, há de acabar ao amanhecer,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão os astros, e também a lembrança,e a alegria…
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Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe…
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Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que…
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Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que…
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Joan Margarit – Despedir-se

Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa,…