Categoria: Nelson Santander – Traduções
-
Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Moça, arranca as rosas, não esperes até manhã.Corta-as sem parar, desenfreadamente,sem te deteres a pensar se são boas ou más.Que não reste nenhuma. Acaba com os roseiraisque encontrares pelo caminho e deixa os espinhospara tuas colegas do colégio. Desfrutada luz e do ouro enquanto puderes e entregatua beleza a esse deus rechonchudo e melancólicoque passeia…
-
Felipe Benitez Reyes – “Collige Rosas”

Consumir este diacomo se fosse o último. Queimá-locomo o último cigarro que resta ao insone.Demorá-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele — como essa moedaque o suicida hesitante lança ao ar —o exato sentido da vida essa desordemde quimeras que morrem nas mãoscomo rosas pisadas,sangrando cor e aturdimento.…
-
Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Já estás com quem queres. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, há de acabar ao amanhecer,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão os astros, e também a lembrança,e a alegria…
-
Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe…
-
Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que…
-
Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que…
-
Joan Margarit – Despedir-se

Removi tapetes e cortinas, todas as mesas em que há tempos não como nem escrevo. Tirei os quadros e pintei as paredes para apagar os sinais dos anos. Guardo uns poucos livros. Sei bem quais. Destruí cartas de amor que não me amavam mais. Silenciosos, agora, os amores são icebergs errantes do pensamento. A casa,…
-
Miriam Reyes – Imóvel

abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua…
-
Joan Margarit – Um pobre instante

A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?…
-
Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdices tua solidão, dedicando-a a uma absurda busca do nada, nem persigas a ti próprio obsessivamente por escuras galerias. Assustado pela luz dos preceitos. Sai no sol a pino e olha para as coisas difíceis. Considera que o jogo desmedido das palavras não te servirá de nada se não te apoiares naquilo…