Tag: Memento Mori
-
David Mourão-Ferreira – Herança

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que…
-
Joan Margarit – Último trem

Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo…
-
Eamon Grennan – Uma manhã

Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e…
-
Steve Kowit – Algumas nuvens

Agora que desliguei o telefone, ninguém poderá me encontrar – Ao menos por esta tarde eles terão que passar sem meus conselhos e opiniões. Agora ninguém mais vai ligar & perguntar com uma voz vacilante se eu ainda não ouvi que ela está morta, a mulher que eu amei uma vez – nada além de…
-
David Ignatow – Para a minha filha

Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.:…
-
Joan Margarit – A combinação

Sozinha entre dois infernos— o da liberdade e o da idade —,já não consigo abrir nosso cofre.A porta com seus números giratóriosé a roleta em que já não aposto.Desde o primeiro suspiro conserveia blindada clarezadaquela rosa.Agora, nua em nosso quarto,a janela aberta e a luz apagada,ouço o rumor urbano da noite,enquanto a leve brisa me…
-
Emily Dickinson – Após grande dor sobrevém um sentimento austero

Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora…
-
Charles Bukowski – Manual de Combate

Eles chamaram Celine de nazista eles chamaram Pound de fascista eles chamaram Hamsun de nazista eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão de fuzilamento e você sabe que eles atiraram em Lorca submeteram Hemingway a tratamento de choque e você sabe que ele se matou e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris) e…
-
Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal —isso deve ter sidohá quarenta anos — ao fundo,apenas prados. Manchasde crocus na relva úmidaEu estava àquela janela:fim de abril. Floresda primavera no quintal do vizinho.Quantas vezes, de fato, a árvorefloresceu no meu aniversário,no dia exato, não antes,não depois? Substituiçãodo cambiante,do que evolui.Substituição terrainexorável pela imagem. O quesei eu deste…
-
Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados,Avistei uma marmota morta.Morta jazia; meus sentidos estremeceram,E a mente disparou para além de nossa fragilidade nua.Ali, humilde, no vigoroso verão,Sua forma iniciou sua mudança sem sentido,E meus sentidos vacilarem, turvos,Ao ver dela a natureza feroz.Inspecionando de perto a força de suas larvasE o caldeirão fervilhante do seu ser,Meio com…