Tag: Memento Mori
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Jorge Valdés Días-Vélez – Pro nobis

Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama

Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta,…
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João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a…
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Carlos Drummond de Andrade – Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores,…
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Carlos Drummond de Andrade – O Medo

Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia…
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Rainer Maria Rilke – Morgue

Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais…
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Darcy Ribeiro – A Indesejada

Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na…
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Cassiano Ricardo – O Relógio

Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
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Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fimde um ano, iníciode outro. Olho o céu:nenhum indício. Olho o céu:o abismo vence oolhar. O mesmoespantoso silêncioda Via-Láctea feitoum ectoplasmasobre a minha cabeçanada ali indicaque um ano novo começa. E não começanem no céu nem no chãodo planeta:começa no coração. Começa como a esperançade vida melhorque entre os astrosnão se escutanem se vênem…