Bianca Stone – Marco Aurélio

Bianca Stone – Marco Aurélio

Às vezes acordo no meio da noite
com uma dor de cabeça terrível, a boca
enegrecida; um fantasma à procura de coisas valiosas
entre os escombros, acendo uma luminária
a pilhas, presa a um livro, e faço anotações
no espírito de Marco Aurélio,
que dizia que o vinho mais fino
não passa de suco de uva atravessando o fígado,
não importa a beleza da taça que espuma,
nem uma noite de grande busca pela Verdade, logo esquecida;
a importância de pôr algo agridoce
na boca, fazê-lo girar e girar
sobre a língua, fazendo dele nossas missões,
nosso propósito — no fim,
somos apenas filtros, nem sequer
tão belos quanto o mais modesto dos pássaros
ou tão zen quanto o mais reles carrapato,
nada se nos entrega, nenhuma nova luz se acende.
Muitas vezes é isto. Desperto, urgente, fatalista,
com gosto de néctar em meus ramos.
Repasso sem parar minha única constância estoica,
meu voto da madrugada:
que, amanhã, iniciarei
o desmantelamento essencial
da vida que tenho vivido.

Trad.: Nelson Santander

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Marcus Aurelius

Sometimes I wake up in the night
with a terrible headache, my mouth
blackened; a ghost looking for valuables
in the debris, I turn on a battery-powered
light, clipped to a book, I write things down
in the spirit of Marcus Aurelius
who said the finest bottle of wine
is just grape juice, passing through the liver,
no matter the beauty of a frothing glass,
or a night of big Truth-seeking, never recalled;
the importance of putting something bittersweet
into our mouths, turning it around and around
on our tongues, attaching to it, our missions,
our purpose—in the end
we are all just filters, not even
as beautiful as the plainest bird
or as zen as the meanest deer tick,
nothing is given over to, nothing new is lit.
So often it is this. I wake up, urgent, fatalistic,
with the taste of nectar on my boughs.
I replay on a loop my one stoic consistency,
my middle of the night vow,
that I will start tomorrow
the essential dismantling
of what I live.

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