Categoria: Poema
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João Miguel Fernandes Jorge – Presépio Animado da Ribeira Grande

Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho.…
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Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços…
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Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a…
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A. M. Pires Cabral – Motes e Voltas

1 Senhor, vão sendo horas. Sei bem que o teu relógio não tem de regular-se pelo meu nem a tua vontade pela minha. Mas é justo que seja aquele que sofre do tempo os enxovalhos a dizer quando vão sendo horas — e não tu, Senhor, com quem o tempo não colide (decerto porque tu…
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Eugénio de Andrade – Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar.
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Inês Dias – Your Funeral, my Trial

O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas.…
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Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos – a dúvida, a possibilidade da morte – e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros – o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, o gato brincando na sala com o último raio de sol da tarde. Dir-se-ia antes uma casa, um pouco mais…
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Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhos pelo meio do pinhal, direcções espantosamente precisas, animais que não voltei a ver. Enquanto as colheitas amadureciam nos campos, havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio para tratar certas lesões, uma peça vital do equipamento. Havia girassóis à volta da casa e as palavras imortais dos…
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Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o…
