Categoria: Poema
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Antonia Pozzi – Desalento

Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire…
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra Por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos. Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomes Familiares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros – música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campas ao fim da tarde, com…
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Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinha quando comecei a sonhar em encontrar-te. Então ignorava, assim como tu o ignoras, que o amor se transforma na arma carregada de solidão e de melancolia que agora está apontada para ti nos meus olhos. Tu és a moça que busquei durante tanto tempo quando ainda não existias.…
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Manuel António Pina – Os Mortos

Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras…
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Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar; Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Toma-me pelas mãos como em um branco casulo E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!… A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o muito que me…
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Mário Cesariny – “de profundis amamus”

Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O…
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Rui Pires Cabral – Nunca se Sabe

Papéis velhos com poemas: são o joio das gavetas. Relê-los causa aversão e uma espécie de tristeza arrependida – são tão nossos como as más recordações e ainda vemos a circunstância precisa, a causa, a ferida, por detrás de cada um. Mas na altura havia esperança: é isso que representam. Não pelas coisas que dizem…
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Amalia Bautista – Ver o Sol

Leia “Ver o Sol”, de Amalia Bautista, um poema breve e intenso sobre desilusão amorosa, percepção e as difíceis verdades da experiência humana.
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José Mateos – Caminhantes na Neblina

Símbolo da morte é esta neblina que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário, que apaga os caminhos e tudo iguala, que faz mais longe o próximo? Assim será a morte? Ouvir ao lado as pessoas que amamos e não vê-las? Saber que em nossa casa nos aguardam, e não poder, e não saber…
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José Tolentino Mendonça – Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente a profundidade dos campos os enigmas singulares a claridade que juramos conservar mas levamos anos a esquecer alguém que apenas nos olhou