Categoria: Poema
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Miguel Martins – Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no…
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Paulo Henriques Britto – “Da metafísica”

Ser parte de alguém ou algo tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, se resume a essa lenda – o mais rematado dislate, coisa jamais entendida, que eleva ao sumo quilate o caco mais reles de vida.
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Marianne Moore – Poesia

Eu também não gosto dela: há coisas mais importantes para além de toda esta farsa. Lendo-a, contudo, com absoluto desprezo, descobre-se nela, no fim das contas, um lugar para o autêntico. Mãos que podem agarrar, olhos que podem dilatar-se, pelos que podem eriçar- se necessário, essas coisas são importantes não porque uma grandiloquente interpretação pode…
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Miguel-Manso – Na morte da avó

não bastasse a humilhação pública de morrer espera-se do corpo que cumpra com indiscutível pompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velório a presença inconveniente dos agentes funerários os adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa cerimônia (não há muito a dizer,…
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Rui Pires Cabral – Morada

Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos. De qualquer modo o mundo…
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Joan Margarit – A Espera

Tantas coisas estão sentindo tua falta. Assim preenchem-se os dias, instantes feitos de esperar por tuas mãos, de sentir falta de tuas pequenas mãos, que pegaram nas minhas tantas vezes. Temos de nos acostumar com tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também haverá de acostumar-se. Tua rua, ainda por…
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Paulus Silentiarius – da “Antologia Grega”

Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronze que guardava Danae e roubou-lhe a virgindade. Moral da história: o ouro tudo domina – paredes e grilhetas de bronze, fechaduras e peias. Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessário rezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira
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Páladas – da “Antologia Grega”

Nascidos nus. Enterrados nus. Qual a azáfama? Toda a vida conduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira
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Lucilius – da “Antologia Grega”

Eutychides, o poeta lírico, morreu. Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes e ordenou que consigo queimassem vinte liras e vinte e cinco pautas de música, que Caronte terá de transportar. Onde se poderá encontrar refúgio, agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira
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Anônimo – da “Antologia Grega”

Não esbanjem comigo o odor da mirra, nem ofereçam coroas de flores, nem acendam a pira funerária, tudo isso é desperdício; ofereçam-me presentes, se quiserem, enquanto estiver vivo – mas espalhar cinzas no vinho torná-lo-á lama e dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira