Categoria: Poema
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Angela Figuera Aymerich – Princípio e Fim (na morte de minha mãe)

Já tenho minha raiz debaixo da terra. Já um pouco morta contigo, mãe, há algo da minha vida que se decompõe contigo, com teus ossos delicados, com tuas veias azuis, com teu ventre que côncavo sofreu, dando-me forma. Na ignorância, mãe, não no pecado mostraste-me como a vida brota. Como a carne cresce e se…
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Spencer Reece – Portofino

Prometa-me que você não esquecerá Portofino. Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil nas paredes daquele quarto no Splendido. As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar. Talvez então você compreenda esse anseio por permanência do qual sempre lhe falei. Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco. Prometa-me que você…
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Jesús Jiménez Domínguez – A Ponte no Nevoeiro

Detenho-me a meio do caminho e ouço. Num extremo aquele que fui grita-me: Espera-me! No outro, aquele que serei sussurra-me: Segue-me. E a ponte, eterna, não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa El Puente en la Niebla Me detengo a mitad del recorrido y escucho. En un extremo aquel que fui me grita:…
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José Gomes Ferreira – Viver Sempre Também Cansa!

Viver sempre também cansa! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinza, negro, quase verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O Mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens não se transformam Não cai neve…
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Pierre de Ronsard – Quando fores bem velha…

Quando fores bem velha, à noite junto à vela, Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando, Dirás, cantando os versos meus e te enlevando: “Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”. Então nem haverá, ouvindo o recital, Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta, Que, com som do meu nome, não desperte…
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Joan Margarit – Era Rubra

A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia…
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Joan Margarit – A partida
Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances…
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Manuel António Pina – Estarei ainda muito perto da luz?

Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: “De quem é este rosto?” E ainda: “Quem pergunta isto?” E: “E com quem fala?” Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja?…
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Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço

Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.
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Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também…