Categoria: Poema
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José Mateos – Canção 1

Ainda quase um meninoe sentaste a esperar àbeira do grande silêncio. Pensavas que, a sóscom tua voz, talvez pudessesroubar ao mar seu segredo. Foi-se a tua juventude.Mudos passaram os anose agora estás oco por dentro. Poderias, se enfim soasseo acorde do grande silêncio,chegar a cantar seu eco? Trad.: Nelson Santander José Mateos – Canción 1…
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Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final,…
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Eunice de Souza – Primavera Relutante

os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall
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Juan Ramón Jiménez – Com tua Voz

Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez – Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.
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André Tecedeiro – de “O Número de Strahler”

nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.
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Yves Bonnefoy – As Árvores

Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do…
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Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim

ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
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Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na…
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Vitorino Nemésio – A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou…
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Joan Margarit – Aventura Doméstica

Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também…