Categoria: Poema
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Miguel Torga – Princípio

Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
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Pedro Mexia – Vamos Morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
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Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco…
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Giuseppe Ungaretti – Vaidade

De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene…
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Ricardo Molina – Convite à Felicidade

Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos…
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Helder Moura Pereira – “Chegamos ao fim do dia…”

Chegamos ao fim do dia e cada um pensa para seu lado que isto não é vida, deixámos na terra os habituais sinais com tanto de amor como de desespero e, de mãos vazias, de coração ainda com alguma coisa mas quase vazio, batemos com a força que nos resta, pela última vez, à porta…
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Josep M. Rodríguez – Talvez Amor

“Talvez Amor”, um poema de Josep M. Rodríguez que encontra, na banalidade chuvosa da cidade, a possibilidade secreta de encontros que podem transformar-se em amizade, amor ou resistência à dor.
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Armando Freitas Filho de “Rol”

150 Ontem, foi-se. Amanhã, não há. Ar, somente, o de hoje no presente, desse dia que projeta na respiração sua plataforma insubstituível: peça única com sua aura esplêndida longe de qualquer linha de montagem frágil a qualquer hora, em aberto. No levante, no meio, no fim do seu alento, não em si, mas em mim…
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Ana Martins Marques – Caçada

E o que é o amorsenão a pressada presaem prender-se? A pressada presaemperder-se
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Rui Costa – Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti. Acordei mais cedo que nos outros dias e com o mesmo sono. A tua boca dizia-me “bom dia” mas não: não o teu corpo todo como nos outros dias. As sombras por aqui são lentas e hoje não comprei o jornal: o mundo que se ocupe da sua…