Categoria: Poema
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Fernando Assis Pacheco – Tentas, de longe

Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
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Sharon Olds – Uma semana depois

Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme,…
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William Stafford – Uma cópia de arquivo

Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de…
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Dylan Thomas – Poema de outubro

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro…
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Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o…
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Czeslaw Milosz – Onde quer que esteja

Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo…
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Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ishmar

para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou…
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Lisel Mueller – Quando me perguntam

Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma…
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Lawrence Ferlinghetti – Allen Ginsberg morrendo

Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para…