Categoria: Poema
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Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

/ Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora,…
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Carlos Drummond de Andrade – Os mortos

Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
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Jane Routh — Um lugar

Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,você derrubou árvores. Você as plantou muito próximasou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós, elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplicaaos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles sãoatrofiados. Você nunca sabe a forma que um…
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Ana Martins Marques – Relâmpagos

O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as…
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Louis Jenkins – O casal

Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja…
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Ada Limón – O ano dos pintassilgos

Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em…
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Wendell Berry – Tudo de que precisamos está aqui

Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson…
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Lisel Mueller – Coisas

O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa…
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Noël Coward – Nada se perde

No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe toda música que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra…