Categoria: Poema
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Mark Wunderlich – O Deus do Nada

Meu pai caiu do barco.Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.Ele havia saído de barco com seu cachorro paracaçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin. Ninguém mais estava por pertosalvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —e ele estava a…
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Ellen Bass – O importante é

O importante é amar a vida, ama-la mesmoquando você não tem estômago para issoe tudo o que você prezouse esfarela feito papel queimado em suas mãos,a garganta repleta desse lodo.Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropicalcondensando o ar, pesado como água, mais próprio para guelras que para pulmões;quando a dor pesa…
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Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî – o coração do poeta

tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universoaves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertossombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdadeirmã da sutil magia…
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Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne…
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Czesław Miłosz – Elegia para N. N.

Diga-me se é longe demais para você.Você poderia ter corrido sobre as ondas mansas do Bálticoe passado pelos campos da Dinamarca, por um bosque de faias,poderia ter-se voltado para o oceano, e ali, logo adiante, Labrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha solitária,tivesse medo das cidades e das luzes…
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David Ignatow – Para minha filha, em resposta a uma pergunta

Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos…
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Robinson Jeffers – Carmel Point

A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o contemplamos pela primeira vez,Campo intacto de papoulas e tremoceiros, murado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando os flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o depredador: e o lugar, se…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro

Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito…
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Miguel Martins – Para o meu pai

Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer…
